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domingo, 22 de julho de 2018

A Sevandija no Castanheiro

“O ser humano não tem medo do desconhecido; tem medo que o conhecido termine abruptamente.”
Jiddu Krishnamurti

J. pegou no envelope amarelado que o carteiro lhe entregou, abriu-o e desdobrou cuidadosamente o papel puído que trazia no seu interior.

“Querida J.

“Cheguei, finalmente, esta quarta-feira, a casa do F. É um casebre insignificante: acanhado, parcamente iluminado e imundo, mais apropriado para a meia-vida miserável de um ermita insano do que para habitação principal de um catedrático - mas confesso que, com cada dia que passa, percebo melhor o apego que o nosso irmão tem por este lugar.

“Quando me viu quase não me reconheceu e mal olhava para mim, a cara enterrada nas páginas poeirentas e carcomidas de um dos seus incunábulos, decerto tentando traduzir a sabedoria dos antigos para um idioma perceptível nos dias de hoje. Coloquei-lhe a mão no ombro, falei-lhe da mãe e ele parou de murmurar entre dentes escutando-me com atenção pela primeira vez. Disse-lhe que tinha de regressar à aldeia comigo para tratarmos das partilhas e da venda do velho casarão.

“Ele riu-se. Soltou uma gargalhada sentida. Uma gargalhada que me assustou e magoou em medidas iguais. Agarrando-me pela mão puxou-me para si e vi, em toda a glória, a sua cara. Sobre um sorriso escancarado, fiada pérola terrificamente afiada, ficavam umas maçãs de rosto sumidas e macilentas, muito distantes da face redonda e bonacheirona que sempre conhecemos, uns olhos embaciados que perscrutavam muito para além do que estava à sua frente e, na testa, um círculo de pequenos cortes exsudando sangue parcialmente coagulado.

“- A Mãe está viva minha cara irmã! - e antes que eu conseguisse recuperar do terror que sentia para elevar a voz em protesto - Mas não aquela mãe pedestre que te fez carne e te largou, entre dores e vísceras, neste vale de lágrimas. Falo daquela Mãe que nos criou a todos, que devora a entropia e defeca as leis e ordem que governam o Cosmos. Aquela Mãe que elevou lodo marinho a uma forma de vida consciente e que regressa agora das profundezas da terra para podermos servi-la no cumprimento do nosso verdadeiro Destino. Porque me olhas assim? Não compreendes? Mais vais compreender!

“Puxou-me, com uma força que a sua forma magra não fazia prever, levando-me a reboque pelas colinas que se estendiam para lá da sua porta. Aquela paisagem, que hoje, enquanto escrevo estas palavras, se me afigura aprazível apesar de um pouco despida, enchia-me de um asco que começava no fundo do estômago, formava uma bola de chumbo, e batia constantemente na minha garganta negando-se a desaparecer ou a saltar-me definitivamente da boca. As ervas rasas e enfezadas lembravam-me bílis e os arbustos queimados dedos demoníacos que se estendiam para nos fazer tropeçar. No cimo da colina erguia-se um castanheiro enorme emanando o nauseante olor adocicado das suas flores, retorcido com idade centenária, cravejado de espaços ocos que me faziam pensar como é que esta árvore massiva ainda se encontrava de pé e notoriamente viva. Com um último encontrão F. empurrou-me a cabeça para o interior de um dos buracos no tronco do castanheiro.

“As palavras faltam-me para descrever convenientemente a beleza maravilhosa com que me deparei naquele recanto. Eu Vi-a! A Mãe! A sua bela pele alva e flácida, os seus braços que se estendiam do fundo do cáudice com estalidos de cartilagem ondulante. Eu Vi-a! A Mãe! Envolveu-me num abraço protector entre os seus membros víscidos aproximou a boca da minha testa para um ósculo de bendição. Antes de sentir o seu beijo da maneira primitiva que os meus sentidos me permitiam - a dor lancinante de milhares de agulhas a perfurarem a minha fronte - lembro-me do seu perfume acre abafar até o horrível cheiro da flor do castanheiro.

“A minha cabeça rasgou-se. Abriu-se a todos os segredos para lá da compreensão humana. Viajou para lá do horizonte do imaginável, banhou-se na luz do impossível. Quando Ela me largou, senti a ausência do seu amplexo com maior desconforto do que o causado pela sua presença e apercebi-me que, de olhos abertos para a verdade, seria sempre sua na eternidade do universo.

“Eu Vi-a! A Mãe! Vem vê-la também!

“Da tua irmã L.”

J. olhou para o fundo da página para um semicírculo sanguinolento que tinha, no seu centro, um chisco de matéria orgânica esponjosa de um cor-de-rosa acinzentado. A boca de J. entreabriu-se e a ponta da sua língua, pulsando com anélito, desceu vagarosamente sobre a folha.

FIM

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #3 - Soluções

Um Fim Borrascoso

- Quem matou Laura Gusmão?
Rolando Norte

- De que pista relevante estava o inspector a falar?
Policarpo referia-se às gotas de sangue na cena do crime, que nos revelam quando este ocorreu.


Rolando afirmou que Laura deixou a bomba de gasolina quando o vento já soprava forte. Mas a forma circular das manchas sanguíneas indicavam que não deveria ainda correr grande vento quando a cabeça de Laura recebeu a fatal pancada com o poste. Isto mostrou duas coisas ao inspector: 1º O incidente não era um acidente provocado pela tempestade; 2º Rolando estava a mentir.

Eventualmente, com o decorrer do inquérito, Rolando Norte confessou tudo à polícia. No fatídico dia, Laura conto-lhe sobre o caso amoroso que mantinha com Joaquim e a sua intenção de fugir com o amante. Rolando estava também apaixonado por ela e a chocante revelação fê-lo explodir. Gritou e ameaçou Laura fazendo-a fugir pela sua vida, pensando que se fosse rápida o suficiente chegaria aos braços protectores de Joaquim. O desvairado Norte logrou apanhá-la, arrancou um poste meio solto da beira do caminho e deixou toda a sua raiva sair num só movimento de braços, apontado à cabeça da vítima. Quando a tempestade se abateu sobre a aldeia, o gasolineiro teve a ideia de contar às autoridades que Laura tinha saído do trabalho durante a tempestade e tudo não passava de um lamentável acidente.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #3

Um Fim Borrascoso

Na meteorologia, como na vida, as mudanças súbitas de humor são sempre dignas de nota.

Gregório Policarpo, Inspector P.J.


Borrasca é uma das mais diminutas aldeias do distrito de Coimbra. Perdida no meio da serra, reconstruída sem atenção ao traçado histórico nem aos materiais típicos da zona, queda-se numa límbica irrelevância turística, amorrinhando a cada ano passado. Meia dúzia de casas amontoadas por entre os socalcos, o posto de gasolina do Sr. Rolando Norte e a Mercearia/Café “Toca do Lobo Mau” era tudo quanto existia naquele lugarejo. Nunca se passava nada em Borrasca. A envelhecida população era demasiado esparsa e desprovida de ambição, talvez devido aos anos gastos a pasmar onde “Judas perdeu as botas”, para investir esforço em qualquer empresa de real interesse comunitário - com excepção de mexericos sobre triângulos amorosos. Até porque a povoação tinha um bastante jeitoso.



Laura Gusmão era o vértice dessa forma geométrica metafórica. Recentemente chegada, juntamente com o marido Orlando, participantes num programa municipal de repovoamento do interior, vivia numa casa na Rua da Bica Seca a uns novecentos metros - por caminho sinuoso descendo até à estrada principal - da gasolineira onde pedira para montar uma barraca dedicada à venda de queijos caseiros fabricados por ela e pelo marido. Este empreendimento dos lacticínios regionais punha o casal em concorrência directa com Quim “Lobo Mau” cujo estabelecimento ficava a uns meros quinhentos metros do posto de abastecimento. A alcunha do taberneiro, que para além dos comes e bebes aproveitava a mercearia para vender bugigangas, roupas e mais que se lembrasse, não advinha, como seria de esperar, do seu mau génio mas sim da colecção de centenas de figurinhas de barro pintadas, representando ovelhas e carneiros de todos os tamanhos, expostos num móvel de madeira com quase dois metros de altura.

Uma animosidade natural cresceu entre Orlando Gusmão e Joaquim “Lobo Mau” que, curiosamente, não se estendia até Laura. A jovem esposa de Orlando possuía uma personalidade que se alimentava de atenção masculina e, infelizmente, havia pouco disso em Borrasca. Pouco tempo passou até se tornar hábito verem Laura a fechar a sua barraquinha para ir passar as tardes no café do Joaquim.
- Ele conta-me histórias ma-ra-vi-lho-sas - entoava ela, em tom de cançoneta para Rolando, o seu amigo do posto de gasolina. - E é tudo perfeitamente inocente. Mas o Orlando não compreende.
Numa tarde de inverno, quando o gotejar de tráfego cessou quase por completo, ventos fortes anunciados pela Protecção Civil (Alerta Amarelo) varreram a quietude bucólica de Borrasca. Uma hora mais tarde, estando já a tempestade amainada, uma carrinha “pão de forma”, levando uma família de turistas holandeses em busca de um WC aberto, cortou da estrada principal em direcção à aldeia. Subindo o caminho, na beira da estradeca, encontraram o corpo de Laura Gusmão. Chamados ao local, a GNR encontrou um velho poste de demarcação de terreno arrancado do solo. A ponta ensanguentada parecia corresponder à ferida aberta na nuca de Laura. Luís Estrada, inspector estagiário da PJ, examinou a ferida e as pequenas manchas perfeitamente circulares de sangue pingadas na terra batida da valeta.

- Parece que o poste se soltou com o vento e lhe deu uma traulitada na cabeça. Acho que não vamos ser aqui precisos.

- Talvez, - respondeu o inspector Gregório Policarpo, meio agastado por estar temporariamente emparelhado a um maçarico. - Mas antes de escrevermos no relatório que isto foi um acidente vamos dar uma vista de olhos às redondezas.

No topo da lista de afazeres estava falar com Orlando Gusmão. O marido de Laura parecia devastado.

- A Laura e eu tínhamos os nossos problemas, mas andávamos a tentar ultrapassar tudo. Prometeu-me que não visitava mais a loja do Joaquim. Hoje de manhã era só bom ambiente durante o pequeno-almoço. Depois desceu a pé até à bomba de gasolina para abrir a barraca. Garantiu-me que não ia ficar até tarde, que não devia haver grande trânsito por causa do alerta. Devia estar a subir para casa quando foi apanhada pela tempestade. 

Quim “Lobo Mau” parecia igualmente triste. O choque causado pela notícia atirou o solteirão de meia-idade para um inesperado estado de honestidade.

- Ela ia deixá-lo, - disse aos dois agentes. - Hoje. A minha irmã comprou-me esta porcaria desta loja. Podem confirmar com ela. A Laura ia fechar mais cedo para vir ter comigo; pegávamos no carro sem dizer “água vai” a ninguém.

- Quem acha disto tudo? - perguntou Luís ao parceiro enquanto desciam a rua. - A vítima estava a ir para casa ou para o snack-bar do Sr. Joaquim?

- É difícil ter a certeza, - admitiu Policarpo. - O caminho onde encontraram o corpo dá acesso a ambos os sítios. Por outro lado, com vento forte a bombar é provável que ela fosse procurar abrigo o mais rapidamente possível e o café fica mais perto. Vamos ver o que diz o dono do posto de abastecimento.

Rolando Norte mostrou-se também completamente destroçado com os acontecimentos, fazendo disparar os alarmes da suspeição na cabeça dos dois polícias.

- Ela era uma mulher fantástica. Tão cheia de vida. Não me disse nada sobre para onde ia. O negócio estava mais que morto e o vento começava a soprar forte. Não a devia ter deixado ir sozinha. É tudo culpa minha.

- E agora? - o estagiário coçava a cabeça enquanto Policarpo procurava as chaves do carro no casaco, todo encolhido do frio crepuscular. - Damos isto como acidente ou homicídio?

- Há, neste caso, uma pista muito relevante, - atirou o inspector destrancando finalmente o veículo. - E diz-nos que isto é um homicídio.

- Como…

- E também nos diz quem é o criminoso.

- Quem matou Laura Gusmão?

- De que pista relevante estava o inspector a falar?

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #2 - Soluções

Baleia Caçada em Terra

- Quem é que os inspectores consideram o seu principal suspeito?
Diogo Lobo-Antunes

- Quais os fundamentos dessa suspeita?
O uso de uma arma de tão difícil manuseio sugere que o crime foi preparado apressadamente essa mesma noite. O local do crime e o facto de alguém ter remexido nos arquivos do clube sugere que o crime está ligado a assuntos do Yacht Club, reduzindo assim a lista de suspeitos para todos aqueles que participaram na reunião e também a sobrinha dos Baleia.

O criminoso sabia disparar a pistola, por isso deve estar ligado por laços de sangue ou afinidade à família Baleia. Assim a lista de suspeitos, novamente reduzida, passa a conter Celso Baleia e o casal Lobo-Antunes. Floriana Lobo-Antunes, que trabalhou até tarde num restaurante aberto ao público, tem um álibi facilmente verificável. Tanto Celso Baleia como Diogo Lobo-Antunes, ambos de baixa estatura, teriam a necessidade de utilizar um escalão improvisado - a cadeira em frente à lareira - para chegarem à arma do crime. No entanto a grave artrite nos joelhos de Celso impedi-lo-iam de andar a trepar mobiliário. Portanto, o suspeito principal é Diogo Lobo-Antunes.

Os inspectores acabaram por descobrir que Roberto Baleia suspeitava que o irmão andasse a desviar dinheiro dos fundos da associação e pediu discretamente a Lobo-Antunes, antes da reunião, para se encontrarem novamente no clube após todos os membros terem partido. Quando regressaram e reentraram no edifício (com ajuda da chave na posse de Roberto), começaram a vistoriar os registos financeiros arquivados na secretaria. As suspeitas contra Celso eram fundadas, mas o irmão desconhecia que Lobo-Antunes estava de conluio com o tesoureiro.

Apercebendo-se que o escrutínio dos arquivos revelaria a sua cumplicidade, Diogo saiu da secretaria desculpando-se com uma súbita vontade de visitar o WC, trepou a cadeira retirando a pistola da parede, chamou por Roberto para que ele saísse do escritório e, valendo-se da fraca mobilidade da vítima, trespassou-o com o arpão. O facto de estar a alguns metros de distância evitou que a sua roupa ficasse manchada com sangue - o que teria acontecido com métodos de homicídio mais confrontacionais.

O advogado limpou a arma, arrumou os ficheiros apressadamente e regressou a casa um pouco antes da esposa.

terça-feira, 29 de março de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #2

Baleia Caçada em Terra


Hmm… Sempre tive esta dúvida: as baleias caçam-se ou pescam-se?
Gregório Policarpo, Inspector da P.J. 


Jorge Neves abanou ligeiramente a cabeça em discreto sinal de espanto. Mesmo após tantos anos como inspector da Polícia Judiciária nunca se havia deparado com qualquer homicídio perpetrado com um arpão. Até agora.


O corpo de Roberto Baleia, vice presidente do Azores Yacht Club de Aveiro, espetado à parede do Salão Nobre do clube como se de um insecto numa tábua de cortiça se tratasse, não era uma visão agradável.

Neves e as outras pessoas, reunidas à volta de uma mesa dessa mesma sala, estavam visivelmente mais à vontade agora que a medicina legal removera o cadáver. O seu parceiro, o Inspector Gregório Policarpo, recusara sentar-se e deambulava com ar taciturno pela divisão, meio atento à conversa.

- O falecido Sr. Baleia foi então encontrado às seis e meia da manhã pelo contínuo e pelo cozinheiro, que aqui chegaram juntos - recapitulou Jorge. - Ligaram-lhe logo a si, Sr. Hélder, que de seguida ligou para o 112 e para os restantes membros da direcção.

- Um resumo correctíssimo, senhor Inspector - disse, nervosamente, Eduardo Hélder, o presidente do clube. - Só de pensar que tínhamos todos estado com ele ontem numa reunião de direcção nesta mesma mesa… Até tenho calafrios.

- E a que horas foi essa reunião? - perguntou Policarpo aproximando-se.

- Bem, eu dei início à sessão às sete e meia e encerrámos duas horas mais tarde. Para além de mim estavam presentes o Roberto, claro, o seu irmão Celso que é o nosso tesoureiro; a dona Dália Marcondes, nossa secretária; o Diogo Lobo-Antunes, nosso conselheiro legal; e ali a Doralice Canedo, nossa vogal.

- Quem foi o último a sair? - Neves garatujava uns apontamentos rápidos no seu bloco.

- Saímos todos mais ou menos juntos - respondeu Doralice Canedo. - Eu e o Eduardo ajudámos o Sr. Roberto e o Sr. Celso a entrarem nos respectivos carros. Ambos sofrem de artrite ao nível dos joelhos e precisam sempre de ajuda a subir e a descer escadas e a entrar e sair dos carros.

- Que idade tinha o seu irmão, Sr. Baleia?

- O Roberto tinha setenta e dois anos - esclareceu Celso Baleia, um homem baixo, queimado do sol e com uma voz trémula. - Eu sou três anos mais novo.

- Foi directo para casa?

- Sim. E antes que pergunte, vivo sozinho. Apesar da idade cá vou andando o melhor que posso. Ao menos ninguém me atrapalha a vida.

- E o Sr. Hélder? Directo a casa? E o Sr. Lobo-Antunes? Dona Marcondes? Menina Canedo? - Todos responderam o mesmo: finda a reunião foram directos para as respectivas casas de onde não voltaram a sair. Floriana Lobo-Antunes, uma trintona alta, ergueu cuidadosamente a mão.

- Eu não estive na reunião, Inspector. Sou chefe de mesa no Cesto da Gávea, um restaurante aqui perto. Estive a trabalhar até às dez e meia e cheguei a casa por volta das onze. O Diogo já lá estava.

- A senhora é a esposa do Sr. Lobo-Antunes, não é? - perguntou Policarpo.

- Correcto. Mas também sou sobrinha dos meus tios Roberto e Celso, por isso é que tive de vir cá falar com os senhores. Não foi, querido? - disse ela, virando-se para o marido.

- Pelo menos assim o quiseste, meu amor - atirou, amuado, o diminuto advogado.

Neves levantou os olhos para o companheiro que observava a pistola de arpões. Esta tinha sido novamente montada sobre a lareira de pedra para que os investigadores tivessem uma ideia mais precisa do local antes do crime. Não foram encontradas impressões digitais na arma.

- É um objecto fora do normal - pensou alto, mais para o amigo que para os restantes, - não chega a meio metro de comprido.

- É um verdadeiro tesouro de família! - declarou Celso Baleia. - A pistola foi inventada pelo Capitão João Baleia do baleeiro Sant’Ana. Só ele a conseguia disparar. Foi emprestada aqui ao clube há já muitos anos, completa com um arpão sem corda.

- Não pensaram nos riscos de terem aqui uma arma real? - Policarpo dirigia-se ao Sr. Hélder.

- A pistola só pode ser disparada depois da activação de alguns interruptores que estão no topo - respondeu o presidente atabalhoadamente. - A sequência correcta é um segredo da família Baleia, passado de geração em geração. Achei que isso servia como segurança.

Celso Baleia aquiesceu tristemente.

- Estou a ver - Policarpo coçou o queixo pensativamente. - Quem gere o dia-a-dia do clube, Sr. Hélder?

- Eu. Mais uma das minhas funções como presidente.

- O edifício estava trancado quando o cozinheiro e o contínuo chegaram esta manhã. Quem tem chaves para estas portas?

- Para além de mim, só o contínuo, os irmãos Baleia e a Dália. Normalmente o contínuo é sempre o primeiro a chegar.

Jorge levantou-se emprestando as suas notas a Gregório. Reviram silenciosamente os factos constatados. O médico-legal deu como estimativa da hora do óbito as dez e um quarto. A cadeira situada mesmo em frente à lareira tinha uma pequena marca de lama seca no assento. A vítima tinha sido morta perto da porta que dava acesso à secretaria do clube, onde uma gaveta de arquivo estava aberta deixando entrever alguns ficheiros financeiros mal arrumados.

Os “Pê Jotas” sorriram um para o outro. Neves falou abruptamente para os presentes.

- Muito obrigado a todos. Podem ir. Depois entraremos em contacto convosco. Principalmente - sussurrou ao amigo - com o principal suspeito.

- Quem é que os inspectores consideram o seu principal suspeito?

- Quais os fundamentos dessa suspeita?

sexta-feira, 25 de março de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #1 - Soluções

O Telefone das Más Notícias

- Comparando os vários testemunhos, quem mentiu?
Eurico Venceslau

- O que levou os inspectores a deslindar o caso?
O testemunho de Eurico sobre o casaco de lã.
Se Eurico viu o seu atacante apenas pelas costas, conforme afirmou, teria sido impossível distinguir o casaco de lã de uma camisola normal. Eurico estava obviamente a mentir.

Depois de pressionado pela PJ Eurico confessou, admitindo que ele e Vladimiro haviam encenado todo o rapto como forma de extorquirem dinheiro ao pai, sempre relutante em separar-se mesmo de pequenas maquias.

terça-feira, 22 de março de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #1

O Telefone das Más Notícias


Num mundo cada vez mais “infectado” por meios de comunicação portáteis, receber um telefonema numa linha fixa só pode, com certeza, ser arauto de desgraças.
Gregório Policarpo, Inspector 


- Eu sei que devíamos ter chamado a polícia, - admitiu Eurico Venceslau resguardando um galo na nuca com a mão - mas o raptor disse que matava o meu irmão se informássemos as autoridades. E a verdade é que podíamos muito bem pagar o resgate.


Vladimiro Venceslau, filho primogénito de Jonas Venceslau, estava desaparecido desde terça-feira. Quarta de manhã, um indivíduo, identificando-se como único raptor, telefonou para a vivenda com um rol de exigências. O Venceslau mais novo (Eurico) teria de levar o dinheiro, em notas usadas de baixa denominação, num saco de desporto sem estampas. Foi-lhe detalhado o percurso que teria de fazer com o seu automóvel desde casa até um estacionamento pago da Baixa. Levaria depois o saco por uma quelha estreita da cidade que desembocava num parque infantil onde o deixaria dentro de um caixote do lixo.

Jonas Venceslau, apesar de conhecido sovina, prontamente e de bom grado aceitou os termos do resgate: pagamento à meia-noite, meio milhão de euros e nada de polícias.

- Eu estava mais ou menos a meio do beco - testemunhou Eurico - quando ouvi passos atrás de mim. Antes de me conseguir virar deram-me uma pancada seca na cabeça. Caí no chão mas não perdi logo os sentidos. Consegui ver as costas do gajo à luz do candeeiro de rua. Não sei dizer como era a cara dele porque não o vi de frente. Fugiu com o saco na mão. Era um tipo alto com sapatilhas brancas. Vestia calças de ganga e um casaco de malha de lã escuro. Peço desculpa mas não consigo ser mais específico.

Graças ao que apenas pode ser descrito como uma boa dose de sorte - raríssima na maioria dos casos criminais - um agente da PSP encontrou Eurico pouco tempo após o ataque. Reportou o crime e um carro-patrulha acorreu de imediato ao local. Dois indivíduos suspeitos, correspondendo à caracterização fornecida por Eurico, foram apreendidos nas proximidades.

- Então e agora é crime correr na rua? - declarou Pedro Bordão iradamente. Havia sido encontrado a duas ruas do local do ataque e desatou a correr assim que viu o carro da polícia. Pedro tem um longo cadastro de delitos menores - Estou em liberdade condicional mas levo uma faca no bolso. Para me proteger, é que há muito bandalho por aí à noite. Vê porque é que fugi?

O segundo suspeito é Arnaldo Amado, um sem-abrigo conhecido na zona.

- Epá, esta camisola nem sequer é minha! - protestou enquanto desabotoava um casaco de lã bastante usado - Encontrei-a no lixo antes de vocês me deitarem as unhas!

Gregório Policarpo e Jorge Neves, inspectores da PJ passaram uma última vistoria pelos apontamentos do caso antes de trocarem olhares. Policarpo dirigiu-se então a Jonas Venceslau. 

- Como lhe estávamos a dizer, não encontrámos o dinheiro na posse de nenhum dos suspeitos e… também não encontrámos o saco de desporto em lado nenhum. Mas eu e o meu colega temos uma ideia do que se terá passado. Não se preocupe, não tarda o seu filho está de volta a casa.

- Comparando os vários testemunhos, quem mentiu?

- O que levou os inspectores a deslindar o caso?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Acerto de Facturação

Chegados ao final do primeiro mês de 2016 tornam-se mais óbvias as actualizações de preçários de todo um leque de comodidades que fazem parte do nosso dia-a-dia. Em alguns desses casos, nomeadamente na conta da electricidade, os acertos provocaram verdadeiros aumentos gastronómicos no orçamento familiar. Maria Albidalina Rodovalho relata: “Eu dantes pagava por volta de 48,00 euros de luz. Este ano, a conta de Janeiro foi 49,00 euros e uma travessa de sushi futomaki. Depois até tive problemas porque como não sei distinguir nada destas porcarias chinesas paguei com sushi mekajiki e obrigaram-me a ir tirar um curso de cozinha asiática.”

Mas não é só nas facturas que estas actualizações de ano novo trazem agruras. A revisão das remunerações de produção de energia, como no caso dos painéis fotovoltaicos, indignou alguns proprietários, conforme conta António Ecuménico Rodovalho: “O ano passado recebia 2,5% do valor de toda a electricidade produzida pelos meus painéis. Este mês já recebi a carta onde dizem que em 2016 só vou receber 1,5% e um cabaz de produtos regionais com enchidos, queijinhos, pães típicos, doces de produção caseira e um pipinho de enguias.”


REW

A lâmpada vermelha do semáforo deu lugar à silhueta intermitente de um humanóide verde marcando, com apitos aflitivos, a contagem do cronómetro do um, para o dois, para o três, para o quatro - seguindo de número em número até outra tentativa falhada de encontro entre os dois irmãos luminosos de cor distinta.

Atravessámos a passadeira parando, à espera que o sinal mudasse, do outro lado da estrada. Ela dobrou-se em convulsões de riso - resposta à minha piada parva - estacando de seguida, muito erecta, contemplando a total estupidez do que eu havia acabado de dizer durante meio minuto. Engoliu um cogumelo de fumo descendente, que se materializou no ar, e uma pitada de cinza saltou da primeira risca da “zebra” até à ponta do cigarro que fumava. Puxou uma fumaça. Num pequeno lampejo alaranjado o cigarro cresceu até se apagar, momento em que fechou o isqueiro e arrumou o cilindro de tabaco dentro do respectivo maço. Carregou o sobrolho e colocou o pacote cancerígeno na bolsa que usava à tiracolo. A sua expressão amainou e elevou os olhos ao alto.

- Vai tu - atirei sem pensar.

- Vai chover - disse ela examinando o céu plúmbeo.

INÍCIO


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

POR LINHAS TORTAS - Parte 03

POR LINHAS TORTAS

Um conto d’O Solucionador

Parte 03: A Escrever Direito

Passou o polegar e indicador pela gola do casaco e ajeitou-a alisando o tecido. Examinou-se durante alguns segundos nas portas de vidro, verificando se o resto do fato estava apresentável e, acima de tudo, respeitável. Concluída a análise, pegou na pasta executiva de couro castanho que mantinha segura entre os joelhos e empurrou a porta que dava acesso ao edifício. Varreu o olhar pela larga recepção, cheia de luz que entrava pelas paredes de vidro, e seguiu até às escadas do edifício, erguidas nas traseiras da recepção, ascendendo ao primeiro andar. Entrou numa porta de madeira envernizada, com uma viseira vertical em vidro e rede de arame, ostentando uma placa que dizia “Secretaria 1”.

Encostado ao outro lado do fino balcão, elevado a uma altura ligeiramente acima da cintura de um indivíduo de estatura média e que servia de separador entre atendedor e atendido, estava Cajó, sempre com o cabelo corredio de oleosidade, culpa da seborreia crónica que o afligia.

- Então “sotôr”, por aqui? - perguntou o administrativo com a habitual postura de bajulação infrene perante quaisquer representantes da classe judicial - Tinham-me dito que estava doente.

- Doente? Não, não. - respondeu Falco Falcão, sem oscilações na voz, sem ares de surpresa, sempre pronto a cultivar inverdades com a destreza de um mentiroso patológico - Foi só uma indisposição matinal. Tive medo que fosse algo pior mas já passou. Sabe como é, amigo Carlos, o corpo quando dá sinais temos de os ouvir. É a PDI…

Entre elogios banais, atestando que Falco não só “estava ali para as curvas” como nem sequer aparentava a sua real idade de sessenta e uma primaveras, recolheu a documentação que necessitava e retirou-se, biqueiras dos impecáveis sapatos de verniz apontadas à sala onde o seu cliente esperava. Chegando ao destino estacou momentaneamente, como que à escuta, abrindo a porta num repente, fechando-a suavemente atrás de si. Cristóvão, sobressaltado, ainda atormentado pelo episódio vivido ao início da manhã, desabou da cadeira onde se sentava largado num pranto desaustinado. O advogado mostrou-se genuinamente contérrito. Após o suborno do dia anterior não contava encontrar o réu à sua espera, pelo menos não inteiro e consciente. O pobre diabo encolhia-se num canto, tentando proteger as extremidades, enquanto carpia efabulações sobre raptos e figuras sombrias, ostentando uma caraça impassível de nariz adunco e orelhas proeminentes, que torturavam espetando agulhas sob as úngulas. Falco sentou-se abrindo o último botão do casaco para deixar a barriga expandir confortavelmente.

- O que raio se passou aqui?

A carrinha galgava, desembaraçada, o asfalto da circunvalação rumo a destino certo. Ele abriu, com uma mão, a maleta colocada no banco do passageiro atirando para pequenas divisões a barbicha falsa, a probóscida e as orelhas exageradas. Limpou a face com um toalhete, enrolou-o dando-lhe como derradeira morada um saco preto contendo lixo que viajava no chão do veículo. Assinalou a mudança de direcção e guinou para a direita entrando num bairro residencial. Os prédios, sinais de humidade nas esquinas das varandas verdes, tinta já cascada da idade, reagiram com indiferença à chegada do automóvel desconhecido que, sem hesitações, estacionou em frente ao Lote N.º 13. Subiu ao segundo andar e destrancou a porta do apartamento B.

De luvas calçadas deitou mãos à obra, revistando cuidadosamente cada divisão do pequeno T1. Nos armários da cozinha antiquados - portas em aglomerado com folha de madeira envernizada e uma orla a toda a volta em borracha negra - encontrou apenas pacotes de pratos, copos e talheres em plástico. O único electrodoméstico presente era um velho, mas bem tratado, forno microondas. Havia um saco de lixo, que aparentava ser para cinquenta litros, encostado a uma parede, completamente cheio, bem atado e com a face externa sem qualquer sujidade ou gordura. A marquise não servia outro propósito senão deixar entrar luz no compartimento e armazenar alguns implementos de limpeza doméstica básica. Passou para o que deveria ser a “sala de estar”... totalmente vazia. Limitou-se a nocar as paredes procurando esconderijos em secções ocas. Tudo indicava que Cristóvão adoptava um estilo de vida bastante espartano, desprovido de qualquer real conforto, usando o apartamento apenas como dormitório ou, a julgar pela impressora profissional que encontrou no quarto, como local de “trabalho”. A falta de qualquer tipo de aparelho electrónico ou memória externa que pudesse estar ligada à máquina não o espantou. Examinando detalhadamente a casa de banho, achou uma máquina fotográfica de boa qualidade, e apetrechos afins, escondida no tanque do autoclismo, acondicionada em sacos selados. Fugindo à luz difusa da latrina, sentou-se num colchão de campismo esticado no quarto, ao lado do equipamento informático. Uma curta pesquisa pela memória da câmara confirmou-lhe que tinha em sua posse aquilo que o haviam contratado para reaver.

No escuro da noite o parque, alegre, verdejante e cheio de vida durante o dia, mostrava-se opressivo e intimidador. Mal iluminado por um candeeiro público, sentado com desconforto num banco humedecido pela geada, encontrava-se um distinto e anafado senhor num impermeável de boa qualidade, com a cabeça tapada por uma boina de fazenda. Ele observava-o das sombras, recordado da primeira vez que tinham falado, recomendação feita pelo Antiquário.

O Dr. Edgar Morais era um velho cliente do Antiquário, tendo até já recorrido às ligações deste a “certos elementos do submundo” para solicitar a compra de peças artísticas impossíveis de adquirir pelos circuitos legais e o eficiente receptador sabia bem que profissionais recomendar para cada serviço que chegava à sua mesa tosca nas traseiras da casa de penhores. Assim conheceu o cirurgião, já perto da casa dos sessenta, carreira na direcção de um hospital, que lhe enarrou a plangente história de uma família de boa posição financeira e social - o pai médico de renome, a mãe talentosa investigadora na área da bioquímica, a filha uma promissora universitária já a dar cartas na filologia das línguas austronésias não obstante as constantes, mas felizmente breves, recaídas no vício dos estupefacientes - que receberam um rude golpe quando Sara Morais, de vinte e um anos, se suicidou após, aparentemente, ter sido violada. Alguns dias após o trágico incidente, Edgar recebeu correio electrónico de um tal Cristóvão Zarco que garantia ter fotos do acto ameaçando entregá-las em toda a sua mórbida glória ao menos escrupuloso tablóide do país caso não fossem cumpridas as suas exigências monetárias. Antes de acordarem a troca do dinheiro pelo cartão de memória contendo as fotografias, o chantagista, e presumido violador, foi detido por envolvimento num caso de extorsão a um conhecido líder partidário. O médico temia que as imagens viessem a público na subsequente investigação aos afazeres de Cristóvão e era imperativo recuperá-las antes que tal acontecesse.
Sentou-se ao lado do cliente. O Dr. Morais perguntou se as tinha encontrado. Estendeu a mão enluvada em couro negro, passando-lhe um rectângulo em papel brilhante, que o cirurgião recebeu limpando uma ligeira viscosidade no centro com o polegar. Apesar da pouca luz as pupilas de Edgar dilataram quando passou os olhos pela prova de contacto.

- Bom trabalho. Está incomodado por lhe ter mentido? Claro que não, você quer é o dinheiro.
As fotos não mostravam Zarco a violar ninguém; cada fotograma registava digitalmente o Dr. Edgar Morais na cama com uma rapariga com idade para ser sua filha.

O mercenário orgulhava-se de manter um serviço com praticamente cem por cento de eficácia, mas para isso era necessário seguir religiosamente preceitos como o da confiança. Perguntou ao cliente porque não lhe explicou a situação quando falaram da primeira vez. A resposta veio cheia de fidúcia, apesar do suor que se acumulava na testa do médico.

- E correr o risco de você sofrer uma crise súbita de moralismo bacoco? Não, não. Estúpido é o jogador que mostra todas as cartas que tem na mão… Amanhã passo-lhe o resto do dinheiro.
Ele tinha apenas três normas: 1.º Saber sempre, antes de aceitar, tudo sobre o seu cliente e o problema a resolver; 2.º O pagamento era adiantado na sua totalidade, sem excepções; 3.º Depois de aceite nenhum trabalho poderia ser cancelado por nenhuma das partes, excepto em caso de quebra das normas anteriores. Quando o Antiquário soube que ele havia aceitado receber apenas uma sinalização, avisou subtilmente Edgar para ter cuidado, mas o médico era demasiado ensimesmado para notar o alerta do amigo.

Edgar Morais levantou-se do banco, meio trôpego, e pediu o cartão de memória, o que recebeu foi a foto que ele tinha mostrado a Cristóvão Zarco no tribunal. O choque fez a prova de contacto escapar dos dedos do cirurgião.

- Porque é que você tem essa foto? É de minha...

Levou a mão ao peito, estertores subindo aos lábios, e caiu de joelhos em frente ao banco de jardim.

A prova de contacto pairava lentamente pelo ar.

O negócio era amoral, o que interessava era prestar um bom serviço. Se o cliente praticava boas ou más acções era irrelevante. Assim como assim o bem e o mal são conceitos subjectivos que dependem dos valores e cultura de cada um. Mas as regras de serviço eram sagradas. Era preciso ter em mente todas as circunstâncias de um caso para que se pudessem avaliar todos os riscos. Só um idiota aceitaria um trabalho em que o cliente não tivesse consciência desse facto. Não havia espaço para sansadurninhos com a mania das espertezas, só a verdade crua era suficiente.

A prova de contacto descia, ronceira, em direcção ao chão.

Edgar revirava os olhos enquanto escumava abundantemente pela boca entreaberta. Tombou para a frente batendo com a cara na gravilha. Um fio de sangue escorreu pela ligeira inclinação do solo.
A prova de contacto parou, iluminada por uma lista de luz atirada descuidadamente pelo caminho. O candeeiro público mostrou à noite a cara da amante, consensual ou não, do médico. Era a mesma da foto que o mercenário trazia. A rapariga não só tinha idade para ser filha do médico como efectivamente era.

Recolheu a prova de contacto, a foto de Sara Morais, o cartão de memória e mais tarde incinerou tudo, incluindo a roupa que trazia vestida, eliminando todos os vestígios da toxina de absorção cutânea com que tinha barrado o papel fotográfico.

Na manhã seguinte, usando um telemóvel pré-pago comprado há doze meses, nunca antes utilizado, ligou para uma cabine telefónica identificando-se a quem atendeu como Bernardo Soares. Do outro lado, uma voz cansada e rouca da idade mas ainda evidentemente feminina perguntou:

- O porco do meu marido já está morto?

FIM

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

POR LINHAS TORTAS - Parte 02

POR LINHAS TORTAS

Um conto d’O Solucionador

Parte 02: Sínicos e Soviéticos

O brilho do sol reverberava dançante na superfície da lagoa varrida languidamente pelo vento. Sentado no cais tosco - a madeira, escurecida de humidade, equilibrada sobre finos postes rodeados de canas, fundeados no leito lodoso e seguros mais por fé colectiva que por engenho humano - demolhava os pés tentando entrever nas algas a silhueta de um qualquer lagostim. O pai chamou-o da margem, a uns quatro metros do lugar onde se encontrava, mas quando se virou para responder lá estava ele, alto, ombros largos, a pele morena ligeiramente encarquilhada pela maresia, o cabelo muito negro e espesso. Com a boca escancarada num trejeito por demais trocista, a podridão de alguns dentes à vista, pegou no filho pelos colarinhos e arremessou-o para a água.

- Nada, Cristóvão! - e ria, o seu gargalhar ecoando nos ouvidos submersos do miúdo como se o pai estivesse mesmo ali ao lado. Pânico, água gelada a entrar em borbotões pelo nariz e boca, cortando os pulmões. Criaturas de longos dedos gosmentos agarravam-lhe as pernas, os braços, lançavam-se já sobre o seu pescoço - quanto mais se debatia mais se enrolava nos argaços do lago. Abriu os olhos sob a superfície e bateu as pernas, dando impulso em direcção ao vulto que o observava, deformado pelas ondas. Emergiu, mas tudo era diferente. A água havia levado para longe a lagoa pejada de juncos e patos, o cais frágil onde atracavam pequenos barcos a remos, a margem onde passava a pacata estrada de aldeia piscatória. A forma do falecido pai, também lavada da sua vista, fora substituída pelo “advogado” que o esmurrara. Finalmente acordado, Cristóvão apercebeu-se que estava num diminuto quarto quadrado, as paredes de cimento despidas traziam-lhe à ideia uma cave pouco usada. Pousando o balde, que havia servido para o arrancar ao pesadelo, o homem apontou-lhe a pêra e fez uma só pergunta. Cristóvão, atado a uma cadeira aparafusada ao chão, atentou nas proeminentes orelhas do raptor, na testa alteada por impiedosas incursões de alopecia, nariz adunco quase bissectando o lábio superior. Um indivíduo com uma fisionomia tão característica só podia planear matá-lo assim que obtivesse a informação que queria. Não lhe daria a satisfação de tornar a tarefa fácil. Talvez a polícia o conseguisse encontrar antes da situação se tornar mais crítica. O orelhudo repetiu a pergunta enquanto despia o casaco. Trocaram um longo momento de silêncio. O sequestrador virou costas e arregaçou as mangas da camisa. Pegou num pequeno estojo rectangular com fecho-éclair e desapareceu nas costas da cadeira. Cristóvão ouviu-o a abrir o fecho, espalhando objectos que, pelo som, aparentavam ter pequenas dimensões. Não sabia se o homem fazia os preparativos para o que se seguiria longe da vista como uma pequena mercê ou para aliar suspense ao terror.

De pé, olhando para os instrumentos organizados em cima do tampo da pequena mesa, o homem seleccionou duas hastes metálicas finas e inflexíveis com pegas de cortiça. Trilhando uma pega entre os lábios, tendo o cuidado de não trincar e estragar a corcha, acocorou-se ao lado de Cristóvão massajando-lhe o braço esquerdo perto do cotovelo. O prisioneiro tremeu, ele imobilizou-lhe o braço com um aperto forte da mão.

Anos antes, um velho fisiatra, emigrante de leste que afirmava ter integrado as fileiras do KGB na antiga URSS, tinha-o ajudado a recuperar de uma grave lesão adveniente de uma queda de dez andares. Durante as longas horas de terapia importunava-o com historiúnculas do passado inglório no Comité de Segurança, salpicando as narrativas com nomes sobejamente conhecidos para lhes emprestar uma certa cor realista. Se tivesse sorte, os episódios inanes davam lugar a descrições minuciosas do que o geronte chamava izkustvoto na ubezhdavaneto, a “arte da persuasão”. Nunca interrogou o terapeuta sobre o facto de utilizar expressões em búlgaro e não russo. Certo dia em que as dores dos exercícios de reabilitação eram insuportáveis, o idoso Ília retirou um estojo de acupunctura do armário branco que ficava por cima do lavatório e lançou-se num monólogo intermitente, pausando, de quando em vez, para procurar os vocábulos que se escapuliam da conversa, enquanto lhe enfiava as agulhas na pele.

- Sabes - tratava todos por tu, não conhecendo outro pronome - uns dizem que a acupunctura vem da Índia parte de uma série de práticas medicinais muito usadas lá. A maioria, no entanto, diz que vem da China, nascida há milhares de anos das experiências de um curandeiro que gostava de espetar flechas em soldados feridos. Li muito sobre ela nos diálogos do Imperador Amarelo. Para quê? No Comité estávamos sempre à procura de novas formas de extracção de informação e o próprio Yuri Andropov teve a ideia, depois de ter sido tratado por um acupunctor, de inverter o conceito: se esta arte podia ser usada para reduzir sofrimento, não seria possível usá-la para o infligir?
Não fazia ideia se Ília estaria a mentir ou a dizer a verdade, as hipóteses do líder do KGB alguma vez ter sido tratado por um chinês eram remotas e a tortura com agulhas era certamente tão antiga como a cura não sendo necessário um russo do século XX vir atirar palpites para o ar, mas a história despertou-lhe o interesse. Assim, ignorando os modelos anatómicos atravessados por meridianos de energia vital, o saber pseudocientífico e filosófico da anciã tradição, muniu-se de um conjunto de agulhas e de um conhecimento perfunctório das ramificações nervosas do corpo humano adoptando uma forma de persuasão rápida, simples, limpa e eficiente baseada na ideia original. Descobriu, por exemplo, que a “dor de cotovelo” estava directamente relacionada com o nervo ulnar, o maior nervo desprotegido do ser humano. 

Apalpou o cotovelo de Cristóvão. Encontrou o local. Enterrou a agulha até à pega.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

POR LINHAS TORTAS - Parte 01

POR LINHAS TORTAS

Um conto d’O Solucionador

Parte 01: Justiça Roubada

Passou o polegar e indicador pela gola do casaco e ajeitou-a alisando o tecido. Examinou-se durante alguns segundos nas portas de vidro, verificando se o resto do fato estava apresentável e, acima de tudo, respeitável. Concluída a análise, pegou na pasta executiva de couro negro que mantinha segura entre os joelhos e empurrou a porta que dava acesso ao edifício. Varreu o olhar pela larga recepção, cheia de luz que entrava pelas paredes de vidro, e rodou sobre os calcanhares para o lado direito dirigindo-se a um balcão cinzento metalizado atrás do qual dois seguranças fardados, e com um crachá ao pescoço, debitavam informações a quem as solicitava. Após breve troca de palavras, subiu o lanço de escadas que se erguia nas traseiras da recepção até ao primeiro andar e seguiu para uma porta de madeira envernizada com uma viseira vertical em vidro e rede de arame que ostentava uma placa dizendo “Secretaria 1”.

Encostado ao outro lado de um fino balcão, elevado a uma altura ligeiramente acima da cintura de um indivíduo de estatura média, que servia meramente de separador entre atendedor e atendidos, estava um homem de cabelo escuro e corredio de oleosidade.

- Posso ajudá-lo? - perguntou o administrativo com uma voz nasalada e arrastada de enfado.

Retirou um papel da sua mala e entregou-a num gesto fluido e confiante. O burocrata correu os olhos pela folha e toda a sua postura se alterou para uma de bajulação infrene.

- Peço desculpa “sotôr”! Não costuma andar por estes lados, pois não “sotôr”? O réu está à sua espera. Entra nesta porta aqui em frente, vira à sua direita e é a segunda porta. Prazer em conhecê-lo, “sotôr”! Se precisar de mais alguma coisa é só dizer, “sotôr”!

Empurrou a porta de dobradiças duplas com o cotovelo e percorreu o caminho indicado, os sapatos de sola de borracha silenciosos sobre o pavimento flutuante, estacando momentaneamente, como que à escuta, antes de abrir a nova porta num repente, fechando-a suavemente atrás de si. Cristóvão, farto de estar sozinho no interior da sala ergueu-se do seu assento olhando expectante o recém-chegado.

- Onde está o doutor Falcão? - Cristóvão referia-se, com certeza, a Falco Falcão, advogado de nome improvável que tratava de o defender. Infelizmente o conhecido causídico, exímio navegador do dédalo jurídico, malabarista dos bizantinos procedimentos judiciais, perito em proteger os seus clientes sob um manancial de papelórios legais tão compacto que vastas vezes pura e simplesmente desapareciam do sistema, encontrava-se recolhido em casa subitamente acometido de uma estranha variação do ritmo circadiano, talvez causada por uma injecção inesperada de fundos na sua conta bancária e uma SMS não identificada dizendo apenas: “Amanhã atrase-se 1H30”, que o fizeram ignorar o alarme matinal.

O cadastrado, alegado perpetrador de um novo crime, embasbacava-se, confuso e suspeitoso da troca de advogados que lhe era apresentada como inevitável - coitado do Falcão, doente da noite para o dia e sem prognóstico de breves melhoras - por um desconhecido que nem queria olhar para ele, fixando o infinito para lá da única janela da divisão, absorto em pensamentos que pareciam manifestar-se numa contagem silenciosa. Os lábios mudos marcavam três minutos. O ruído de engrenagens hidráulicas a funcionar romperam pensamentos que tentavam fazer sentido de toda a situação, o advogado substituto puxou de uma foto que deixou cair na mesa à vista do marginal. Era ela.

- Quem raio é…! - Cristóvão não terminou, derribado e atirado para a inconsciência por dois socos certeiros.

O tempo era escasso. Nas traseiras do edifício do Tribunal encontrava-se um automóvel com elevador cuja plataforma descendente estava quase a passar por aquela sala. O funcionário da vidreira havia terminado de substituir uma janela, situada dois andares acima, partida na noite anterior. Vendo já o fundo do elevador a espreitar pelo caixilho colocou uma máscara de protecção sobre as vias respiratórias e ocultou-se, preparando uma lata de aerossol descaracterizada. Atacou assim que a plataforma anivelou com a divisão em que se encontrava - a mão esquerda disparou agarrando o surpreso operário pela nuca e borrifou-lhe a cara com o atomizador seguro na esquerda. Carregou no botão vermelho do comando enquanto o trabalhador inanimado escorregava, lentamente, sentando-se encostado ao corrimão protector. Atirou Cristóvão para o ascensor, um gemido abafado escapando do peso morto, e seguiu-o premindo o botão verde que recomeçava a descida. A oscilação, lenta mas segura, da maquinaria tornou-se sacudida ameaçando parar ou, pior ainda, lançar-se em queda livre. Seria muito comprometedor ser apanhado ali, um vidreiro roncante de um lado e um criminoso em julgamento, adormecido à força de punhos, do outro. Parou a plataforma e leu a matrícula do veículo no reflexo de um carro metalizado à sua frente. Que azar. A chamada para um serviço urgente no Tribunal havia feito a empresa utilizar o carro mais próximo: o que se tinha deslocado à cidade para uma tão merecida manutenção. Observou as mangueiras e localizou a fuga perto da base do braço elevatório. Sempre atento a movimentos nas casas circundantes abriu a mala e espalhou algum equipamento avulso pelo chão metálico. Arrumou um rolo de fita isoladora no bolso do casaco, prendeu uma resistente corda de escalada ao mainel que rodeava o elevador montando, com ajuda de mais corda e um mosquetão para o freio, um crude e extremamente perigoso sistema de rappel. Apesar da perícia com que deu os nós, inveja de muitos montanhistas, hesitou antes de se largar naquele vazio de poucos metros mas não menos letal por isso. Deixou-se cair.

A reparação improvisada durou alguns segundos terminando no completo sucesso da viagem vertical. Ninguém parecia ter ainda dado o alerta, as vivendas adjacentes à estrada tão quedas quanto antes, mas nunca fiando em aparências rapidamente abandonou o trabalhador ao seu merecido sono reparador carregando Cristóvão até uma Vanette parada ali perto. Deitou-o num grosso tapete de trapos estendido na traseira da carrinha e tolheu-lhe os movimentos com atilhos plásticos invioláveis para o caso de retomar os sentidos enquanto conduzia. Fechou a porta traseira. Abriu a porta do condutor, sentou-se, fechou-a. Ligou o motor. Partiu.

Uma hora e quinze minutos antes de Falco Falcão pôr um pé dentro do Tribunal, Cristóvão Zarco havia desaparecido.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Rapsódia de Gaita-de-Foles

Parte 1 - Explicação em Dó Menor

"Não compreendo nada disto!" - queixou-se Felipe ao Doutor Trusga. A verdade é que o raio do rapaz era de uma compreensão lenta que até assustava! Já não conseguia ouvir as lamúrias, cuspidas em zurrar asinino, do aluno que lhe tinha solicitado ajuda extracurricular. Era já a quarta sessão e nada!

Valha-me São Sinfrónio, será possível que exista alguém assim tão estupido?, pensou Fernando Trusga, professor do ensino secundário e filósofo do queijo nas horas vagas.

Subitamente foram os dois atropelados por um bando de tocadores de gaita-de-foles.

 Parte 2 - Semi-saga de um Martelo Pneumático para Instrumentos de Sopro

TAT-TAT-TAT-TAT, fez o martelo pneumático a perfurar o solo com imparável força, guiado pela mão relutante de um trabalhador estóico. Pedro era o nome desse trabalhador e ganhava muito pouco.

Subitamente foi atropelado por um bando de tocadores de gaita-de-foles.

Parte 3 - Montanha para Gaita e Estrondo

Esta narrativa segue de perto a fantástica estória de Fi-póim-tim-póim, monge budista de um qualquer templo longínquo que ninguém sabe exactamente onde se encontra. Observemos atentamente enquanto o "olho" narrativo sobrevoa as montanhas tibetanas e mata dezenas de pássaros que tiveram a infelicidade de se atravessarem no seu caminho.

Subitamente uma gaita-de-foles gigante arrasa o templo.

Parte 4 - Horror e uma Gaita

Não pretendo assustar os meus potenciais leitores com o seguinte conto, mas gostaria de vos alertar para o perigo que correm permanecendo no Jardim. Certamente que pensarão que estou a gozar, ou que esta narração pertence ao mundo das percepções dementes de um cérebro doente, pois deixem-me dizer que tudo o que escrevo nestas páginas é a mais pura verdade por mais estranho que vos pareça. Não deixem que o facto de eu estar internado numa instituição psiquiátrica vos detenha de lerem atentamente estes grafismos... O quê? Não!! Por favor tem piedade! NÃAAAAO!!! Gurk... *FUENNN* (onomatopeia representativa do som de uma gaita-de-foles)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pascoalidade Nacional

- No dia em que é conhecido o relatório do estudo encomendado pelo PSD no que concerne os índices de natalidade em Portugal, cabe-nos a nós relembrar a tantas vezes olvidada questão da pascoalidade nacional. É francamente alarmante que tão poucas pessoas ressuscitem em solo português não é assim Dr. Eleutério Rodovalho?

- É isso mesmo... Antes de mais deixe-me só desejar-lhe uma boa noite e um bem-haja por me ajudar a dar voz a esta situação de queda a pique dos números de ressuscitados no nosso belo país à beira-mar plantado...

- Mas diga-me uma coisa, qual é efectivamente, no presente, o número médio diário de ressuscitações entre os defuntos lusitanos?

- Ora bem... vou só consultar aqui os meus canhenhos... exacto, como eu temia é zero.

- Zero.

- Correcto, nota-se que presta atenção.

- Então e em termos gerais ou históricos, quantas pessoas voltaram à vida depois de, digamos, baterem a caçoleta?

- Em registo, e friso bem isto, EM REGISTO apenas uma pessoa em toda a história de Portugal ressuscitou e é uma vergonha que estejamos tão abaixo da média europeia em matéria de re...

- Dr. Eleutério desculpe interrompê-lo... Uma pessoa? Quem?

- Ora, eu pois está claro!

- O senhor.

- Sim, sim. Mas atenção que já o fiz várias vezes durante os séculos. Enfim, vou tentando fazer a minha parte para colmatar as lacunas que o governo permite ficarem mais vincadas de ano para ano.

- O Dr. Eleutério está a gozar connosco?

- Eu percebo que é bastante constrangedor ter a verdadeira noção da escassez destes números, mas temos que ultrapassar o choque e tentar perceber os porquês. No meu relatório faço menção à falta de condições que temos neste campo, condições que seriam essenciais para não afastarem os jovens defuntos deste tão importante passo na vida de cada um.

- Mas qual falta de condições?

- Também usava esse tom céptico quando comecei a pesquisa para este meu trabalho mas basta olhar para os outros exemplos que temos e rapidamente vemos que algo não está bem. Jesus, um alfacinha de gema decidiu ressuscitar no estrangeiro - no Médio Oriente veja bem!

- Então mas espere aí, Jesus não nasceu em Lisboa, nasceu em Belém.

- Ó amigo, francamente! Que não saiba nada de ressuscitações ainda é como o outro e para isso é que aqui estou. Agora, não me peça para lhe ensinar geografia local! Onde é que fica Belém, santinho?

- Estou em crer que Belém onde nasceu Jesus e Belém freguesia de Lisboa são dois sítios diferentes...

- Sim, e querem lá ver que os dinossáurios também habitaram a terra há milhões de anos atrás?

- Erm... há fortes indícios a apontar para isso.

- Olhe pois a mim não me enfia esse barrete porque eu estava lá! Na altura em que dizem que havia lagartos gigantes a galgar o planeta estava eu a tentar ressuscitar a primeira vez. E lá consegui depois de algumas falsas partidas.

- Peço desculpa Dr. Eleutério, notícia de última hora: a Terra vai explodir dentro de dez minutos. Depois do intervalo continuaremos a emissão do núcleo interno terrestre, composto por ferro e níquel, de onde acompanharemos a hecatombe até ao seu último segundo. Até já.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Bom dia Dona Pêga. O seu esposo como vai?

Empurrada pelo medo do que acabara de acontecer à sua frente, Clara tombou no vazio do penhasco que se abria nas suas costas. Abraçada pela noite, desapareceu no anonimato do nevoeiro compacto amontoado no fundo da ravina, cotão meteorológico aglutinado por uma vassoura gigante.

Sigesmundo havia de se recordar muitos anos deste episódio. De sentir o guincho estridente dela como um gume gelado que lhe dançava pela espinha - para cima, para baixo - por breves mas perenes segundos. Da pancada seca de aflição que o atordoou, raiando da base da nuca para todas as extremidades, enquanto Clara soçobrava, languinhenta, naquelas nuvens baixas...

À Procura das Japoneiras

Controlar a respiração era mais complicado do que se recordava.

A falta de exercício tinha-lhe deixado o corpo perro, os músculos e tendões carcomidos pela ferrugem da inércia, mas agora não havia volta a dar: tinha-se comprometido consigo próprio e não ia falhar. Fazia uma cruz no calendário em cada dia que planeava fazer jogging, para bem da sua saúde física e mental.

Enquanto ponderava estas questões, absorto, passaram por si vários postes e sinaléticas verticais que gritaram, em conjunto com os edíficios do quarteirão, a crescente infamiliaridade dos locais por onde se embrenhava.

Dobrou uma curva que enveredava por uma viela acima da qual emergiu apenas o passeio...

domingo, 29 de julho de 2012

Invenções de Somenos Relevo que Deixaram o Mundo Mergulhado na mais Profunda Indiferença mas Ainda Assim se Armam em Importantes

OS GRAMPOS

E outras coisas de agarrar à parede

Foi em 1897 que Óscar “Camarão” Grampo revolucionou a indústria dos museus ao colocar na parede as peças que, até aí, haviam atrapalhado os patronos que visitavam os atulhados espaços culturais. O caminho até à epifania grampesca foi um longo e tortuoso fim-de-semana que praticamente exterminou a então prática corrente de colocar tudo em cavaletes.

Reza a lenda que numa bela manhã de domingo a família Grampo[1] estava de visita ao Museu de Belas Artes do Pissarral visionando com óbvio gáudio a exposição de cenas piscatórias do famoso, mas misterioso, pintor português O Artista Antigamente Conhecido como 1 Atum Mas Que Preferia Ser Chamado 2 Sardinhas dispostas com primor sobre cavaletes de fabrico artesanal. Seguiu-se um lamentável desaire quando Óscar, distraído pela acirrante conversa com Chiquinho Pai desencadeou, com um simples encosto, o desastroso efeito dominó numa versão cavalete. É de notar que a tela originalmente derrubada foi o singular “Sapateiro Abalroado por Rodovalhos” assinado já com o epíteto do período expressionista do artista Vá lá, Chamem-me 2 Sardinhas.

Estavam portanto lançadas as sementes da necessidade sobre o campo fértil de ideias que era o intelecto de Óscar Grampo sempre temperado, como ele nunca escondeu, com a compostagem de óptima qualidade (daquela que cheira mesmo a caquinha de vaca) que eram os conselhos de Xiquinho Filho – também ele grande vulto do engenho nacional, sendo até creditado com a invenção do osso de choco artificial para periquitos – em suma, as condições ideais para a germinação de um grande invento.

Partindo de uma tentativa de readaptar as ferramentas que já existiam para o propósito que pretendia, usou pregos para fixar alguns quadros na parede da Casa-Museu Porque É Que Ninguém Me Chama 2 Sardinhas, em Trezói, originando algum atrito com Alexandre Carcanhol, curador do espólio em repouso nessa instituição, na polémica que a imprensa da época apelidou d’A Crise do Estuque e que durou, na boa, uns vinte minutos. Trinta no máximo. Destas suas experiências surgiram: fixadores de cabos, pitões, camarões (uma homenagem à alcunha do seu criador) e, claro, os almejados grampos, jóias da coroa deste tesouro da bricolage. Infelizmente, quando alcançou a solução pretendida havia mutilado inúmeras peças de arte de forma incomportável sendo obrigado a ceder a patente dos seus frutos geniais como forma de pagar as devidas indemnizações.

Óscar Grampo, degustador de camarão e cerveja, apreciador das belas artes, filósofo, teólogo, astrónomo, apicultor e produtor de queijo ímpar, faleceu na penúria abandonado por todos os seus amigos e familiares. Esperamos ter feito alguma justiça ao relembrar que na cabeça deste homem, para além da caspa, assentavam os louros da invenção do indispensável grampo.

Terminamos este texto, em jeito de homenagem, com um excerto de Sa main dans ma derrière, autobiografia de Xiquinho Filho que nos revela os pormenores da sua intimidade com o grande inventor, confirmando os rumores de uma relação amorosa entre ambos. O autor tem então o seguinte a dizer sobre Óscar: “Meu Deus, exclamou a princesa, que bom.”

[1] Dados encontrados em 1998 por historiadores nos cadernos de censo do INTED (Instituto de Números Total e Extremamente Desinteressantes), antecessora do INE, mostram que o agregado da família Grampo na primavera de 1897 era constituída pelo “Excelso Senhor Óscar Grampo, um títere registado sob o nome Chiquinho Pai e o bonifrate seu companheiro, Xiquinho Filho.”

terça-feira, 10 de maio de 2011

Um cemitério cheio de Ti

Sinto a tua falta. Desde que fizemos aquela estúpida promessa no dia do meu décimo quinto aniversário nunca te esqueci. Subo a rua, a gravilha esbranquiçada estala sob a sola de borracha das minhas sandálias, o couro castanho maculado pelo pó solto do caminho engaiola as meias que trago calçadas.

Dizias-me, quando as nossas modas mudavam para acomodar o clima mais quente do Verão, que era fatela – acho que era a palavra exacta que utilizavas – vestir meias e algum tipo de calçado aberto em público; recordo-me dos teus olhos verdes a rebolarem em sarcástica discordância com a minha justificada aversão a fungos e outras maleitas das extremidades corporais inferiores. Rir-te-ias de mim ao saberes que continuo a temer, irracionalmente, a gangrenação do meu pé esquerdo?

O município, há muito, decepou as árvores que enfeitavam os passeios de pedra branca em frente a tua casa – as mesmas que por esta altura inundavam a estrada com o cheiro, a cor e o ruído da estação – alegando serem um embaraço à deslocação dos transeuntes.

[...]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Queda de Roma - Crónicas de um Jet7 Rasca

Miguel Fidavilho Bordalosa descansava num quarto especial da sua clínica privada, recuperando de ferimentos causados pela explosão de um dos implantes mamários da sua acompanhante na última Cocktail-Party que honrou com a sua presença. A pobre coitada, apesar dos avisos e do sinal de altamente inflamável e explosivo colocados nas suturas, chegou-se demasiado perto de um candelabro com acabamentos em filigrana, o que resultou na lamentável tragédia.

Raios partam os implantes baratos.

Até ao fim dos seus dias ir-se-á sempre recordar da visão dantesca de Marieta "TaTa" Serveira de Vasconcelos a descrever um interessante movimento de pêndulo com as pernas após ter voado 10 metros na vertical e ter, num improvável efeito de ventosa, ficado agarrada ao vidro da clarabóia pelos seus lábios colagenados.

O tratamento estava a ser complicado. Levar com detritos de derivados de borracha na cara não era pêra doce. Apesar da sua aparência externa ter sido recuperada em 93%, as suas narinas permaneciam irresolutamente vulcanizadas e tudo lhe cheirava a fábricas de recauchutagem.

FEDEATH - Os Estafetas da Morte. - Parte 1 (?)

O bem cuidado Alfa-Romeo azul-escuro aportou na espaçosa garagem da soberba vivenda algarvia, propriedade do Excelentíssimo Senhor Engenheiro Onésimo Braga de Ramalho e Mendonça, personalidade de ascensão meteórica nos círculos políticos nacionais, num voo que, em breve, atingiria o tão almejado (e, segundo muitos, merecido) zénite da sua carreira: a posição de chefe do governo. Onésimo saiu sorridente da sua viatura – tinha decidido conduzir ele próprio, dispensando o chauffeur, colocado a seu serviço pelo Estado, até ao dia seguinte – e cumprimentou o seu jardineiro com um simples mas cordial bom-dia, acenando cortês e familiarmente com a cópia do Expresso que trazia em mãos. Era esse jornal a razão de tão boa disposição; a primeira página mostrava uma foto onde se esparramavam restos materiais da principal habitação (bem como os restos mortais dos ocupantes) de Carlos Alberto Rodado, seu principal opositor político e perene pedra no proverbial sapato com que calcorreava o trilho até São Bento. Quem diria que enviar uma dissimulada bomba através do secreto mas ilegal serviço de entregas que alguns amigos deputados, com ligações ao mercado negro, lhe haviam recomendado correria tão bem? A polícia às aranhas, o partido opositor num badanal de confusão agora que o seu candidato havia sido esfacelado por uma explosão de TNT, em suma, a vida era bela.

– Se calhar não é tão bela como gostaria. – replicou um indivíduo vestido de fato e gravata, olhos encobertos por um par justo de óculos de sol, sentado de perna traçada, que nem rei e senhor, no sofá da sala de estar.

O engenheiro manteve a calma.

– Quem é o senhor?

[Continua?]

Uma Dose de Dados #03

Rubrica de considerações e ponderações demasiado prolixas sobre RPGs de mesa A Minha Estante: Star Ace Já se depararam com a express...