terça-feira, 12 de março de 2019

Uma Dose de Dados #01

Rubrica de considerações e ponderações demasiado prolixas sobre RPGs de mesa 

Pela toca do coelho adentro

Numa encruzilhada entre o teatro de improviso e os jogos de tabuleiro encontra-se esse fantástico exercício de imaginação, esse faz-de-conta regrado, o Role Playing Game de papel e caneta; e não há nada exactamente igual a um grupo de amigos reunidos à volta de uma mesa a encarnarem uma miríada de personagens fantásticas que vivem um sem-número de aventuras mirabolantes.
A génese de muita diversão,
acusações de satanismo e inspiração
de maus filmes com Tom Hanks

Da fantasia medieval de Dungeons & Dragons e Pathfinder, passando pelo horror cósmico de Call of Cthulhu, pelo futurismo decadente do Cyberpunk 2020, chegando até (caso nenhum universo pré-fabricado nos excite o imaginário) aos sistemas de RPG genéricos como o FATE Core ou Savage Worlds, existe uma infinidade - tão vasta quanto a nossa própria mente - de opções deste tipo de diversão.


Com ajuda de uma mão cheia de dados (das mais variadas cores e feitios) e da orientação sempre amistosa - ou não - do/da GM (do ing. game master; designação internacional pela qual são conhecidas as pessoas que dirigem/arbitram uma sessão de RPG, responsáveis por criar todo o ambiente que rodeia as personagens dos jogadores, por colocar obstáculos no caminho destas e por fazer aplicar as regras quando necessário), cada membro do grupo colabora para contar parte de uma estória onde interpretam papéis de relevo: aventureiros a desbravar cavernas repletas de tesouro enquanto tentam escapar às armadilhas e bruxarias de um carocho que quer usar os seus ossos como ingrediente para construir um filactério que o tornará imortal; mercadores espaciais acidentalmente envolvidos numa operação de contrabando que trará novo equipamento a um grupo de rebeldes que pretende destronar o tirânico império galáctico vigente; agentes da autoridade que tentam desesperadamente encontrar a família raptada do presidente antes que este assine o perdão de vários membros de um sindicato de crime organizado; amorais espiões industriais contratados por uma mega-corporação para roubarem os segredos da concorrência; detectives privados a investigarem um homicídio invulgar que depressa desemboca numa conspiração repleta de traições e ocultismo; etc.

Uma mescla de Júlio Verne
com H.G. Wells
A minha primeira incursão por este fantástico hobby, infelizmente pouco jogado em Portugal, foi no dealbar do novo século - nos idos áureos do mIRC - quando conheci um jovem norte-americano num canal dedicado, maioritariamente, à discussão e partilha de banda desenhada japonesa. Em conversa sobre vários temas geek acabou por me aliciar, juntamente com mais três pessoas, a jogarmos uma sessão do seu RPG favorito, Space 1889, passado numa época vitoriana alternativa em que as viagens espaciais e a colonização do sistema solar eram uma realidade.

Uma sessão sem exemplo tornou-se uma campanha que demorou quase três anos a terminar e após as nossas personagens terem rumado em direcção ao pôr-do-sol (na verdade roubaram um navio espacial e zarparam para fora do sistema solar - provavelmente acabaram perdidas e esquecidas na imensidão cósmica, mas vamos pensar que viveram felizes para sempre) apercebi-me que o "bichinho" do RPG estava firmemente plantado em mim. É com esse mesmo "bichinho" que vos quero também infectar, convidando-vos para abrirem a mente, darem asas à fantasia e me acompanharem todas as semanas - se a procrastinação e o ócio não levarem a melhor - em pequenas viagens pelo mundo dos RPGs de mesa. Talvez no futuro nos encontremos à volta de um mapa desenhado em papel quadriculado.

Não se esqueçam: há muita coisa boa que se pode fazer numa mesa, mas uma delas é jogar.

Até à próxima!🎲

domingo, 22 de julho de 2018

A Sevandija no Castanheiro

“O ser humano não tem medo do desconhecido; tem medo que o conhecido termine abruptamente.”
Jiddu Krishnamurti

J. pegou no envelope amarelado que o carteiro lhe entregou, abriu-o e desdobrou cuidadosamente o papel puído que trazia no seu interior.

“Querida J.

“Cheguei, finalmente, esta quarta-feira, a casa do F. É um casebre insignificante: acanhado, parcamente iluminado e imundo, mais apropriado para a meia-vida miserável de um ermita insano do que para habitação principal de um catedrático - mas confesso que, com cada dia que passa, percebo melhor o apego que o nosso irmão tem por este lugar.

“Quando me viu quase não me reconheceu e mal olhava para mim, a cara enterrada nas páginas poeirentas e carcomidas de um dos seus incunábulos, decerto tentando traduzir a sabedoria dos antigos para um idioma perceptível nos dias de hoje. Coloquei-lhe a mão no ombro, falei-lhe da mãe e ele parou de murmurar entre dentes escutando-me com atenção pela primeira vez. Disse-lhe que tinha de regressar à aldeia comigo para tratarmos das partilhas e da venda do velho casarão.

“Ele riu-se. Soltou uma gargalhada sentida. Uma gargalhada que me assustou e magoou em medidas iguais. Agarrando-me pela mão puxou-me para si e vi, em toda a glória, a sua cara. Sobre um sorriso escancarado, fiada pérola terrificamente afiada, ficavam umas maçãs de rosto sumidas e macilentas, muito distantes da face redonda e bonacheirona que sempre conhecemos, uns olhos embaciados que perscrutavam muito para além do que estava à sua frente e, na testa, um círculo de pequenos cortes exsudando sangue parcialmente coagulado.

“- A Mãe está viva minha cara irmã! - e antes que eu conseguisse recuperar do terror que sentia para elevar a voz em protesto - Mas não aquela mãe pedestre que te fez carne e te largou, entre dores e vísceras, neste vale de lágrimas. Falo daquela Mãe que nos criou a todos, que devora a entropia e defeca as leis e ordem que governam o Cosmos. Aquela Mãe que elevou lodo marinho a uma forma de vida consciente e que regressa agora das profundezas da terra para podermos servi-la no cumprimento do nosso verdadeiro Destino. Porque me olhas assim? Não compreendes? Mais vais compreender!

“Puxou-me, com uma força que a sua forma magra não fazia prever, levando-me a reboque pelas colinas que se estendiam para lá da sua porta. Aquela paisagem, que hoje, enquanto escrevo estas palavras, se me afigura aprazível apesar de um pouco despida, enchia-me de um asco que começava no fundo do estômago, formava uma bola de chumbo, e batia constantemente na minha garganta negando-se a desaparecer ou a saltar-me definitivamente da boca. As ervas rasas e enfezadas lembravam-me bílis e os arbustos queimados dedos demoníacos que se estendiam para nos fazer tropeçar. No cimo da colina erguia-se um castanheiro enorme emanando o nauseante olor adocicado das suas flores, retorcido com idade centenária, cravejado de espaços ocos que me faziam pensar como é que esta árvore massiva ainda se encontrava de pé e notoriamente viva. Com um último encontrão F. empurrou-me a cabeça para o interior de um dos buracos no tronco do castanheiro.

“As palavras faltam-me para descrever convenientemente a beleza maravilhosa com que me deparei naquele recanto. Eu Vi-a! A Mãe! A sua bela pele alva e flácida, os seus braços que se estendiam do fundo do cáudice com estalidos de cartilagem ondulante. Eu Vi-a! A Mãe! Envolveu-me num abraço protector entre os seus membros víscidos aproximou a boca da minha testa para um ósculo de bendição. Antes de sentir o seu beijo da maneira primitiva que os meus sentidos me permitiam - a dor lancinante de milhares de agulhas a perfurarem a minha fronte - lembro-me do seu perfume acre abafar até o horrível cheiro da flor do castanheiro.

“A minha cabeça rasgou-se. Abriu-se a todos os segredos para lá da compreensão humana. Viajou para lá do horizonte do imaginável, banhou-se na luz do impossível. Quando Ela me largou, senti a ausência do seu amplexo com maior desconforto do que o causado pela sua presença e apercebi-me que, de olhos abertos para a verdade, seria sempre sua na eternidade do universo.

“Eu Vi-a! A Mãe! Vem vê-la também!

“Da tua irmã L.”

J. olhou para o fundo da página para um semicírculo sanguinolento que tinha, no seu centro, um chisco de matéria orgânica esponjosa de um cor-de-rosa acinzentado. A boca de J. entreabriu-se e a ponta da sua língua, pulsando com anélito, desceu vagarosamente sobre a folha.

FIM

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #3 - Soluções

Um Fim Borrascoso

- Quem matou Laura Gusmão?
Rolando Norte

- De que pista relevante estava o inspector a falar?
Policarpo referia-se às gotas de sangue na cena do crime, que nos revelam quando este ocorreu.


Rolando afirmou que Laura deixou a bomba de gasolina quando o vento já soprava forte. Mas a forma circular das manchas sanguíneas indicavam que não deveria ainda correr grande vento quando a cabeça de Laura recebeu a fatal pancada com o poste. Isto mostrou duas coisas ao inspector: 1º O incidente não era um acidente provocado pela tempestade; 2º Rolando estava a mentir.

Eventualmente, com o decorrer do inquérito, Rolando Norte confessou tudo à polícia. No fatídico dia, Laura conto-lhe sobre o caso amoroso que mantinha com Joaquim e a sua intenção de fugir com o amante. Rolando estava também apaixonado por ela e a chocante revelação fê-lo explodir. Gritou e ameaçou Laura fazendo-a fugir pela sua vida, pensando que se fosse rápida o suficiente chegaria aos braços protectores de Joaquim. O desvairado Norte logrou apanhá-la, arrancou um poste meio solto da beira do caminho e deixou toda a sua raiva sair num só movimento de braços, apontado à cabeça da vítima. Quando a tempestade se abateu sobre a aldeia, o gasolineiro teve a ideia de contar às autoridades que Laura tinha saído do trabalho durante a tempestade e tudo não passava de um lamentável acidente.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #3

Um Fim Borrascoso

Na meteorologia, como na vida, as mudanças súbitas de humor são sempre dignas de nota.

Gregório Policarpo, Inspector P.J.


Borrasca é uma das mais diminutas aldeias do distrito de Coimbra. Perdida no meio da serra, reconstruída sem atenção ao traçado histórico nem aos materiais típicos da zona, queda-se numa límbica irrelevância turística, amorrinhando a cada ano passado. Meia dúzia de casas amontoadas por entre os socalcos, o posto de gasolina do Sr. Rolando Norte e a Mercearia/Café “Toca do Lobo Mau” era tudo quanto existia naquele lugarejo. Nunca se passava nada em Borrasca. A envelhecida população era demasiado esparsa e desprovida de ambição, talvez devido aos anos gastos a pasmar onde “Judas perdeu as botas”, para investir esforço em qualquer empresa de real interesse comunitário - com excepção de mexericos sobre triângulos amorosos. Até porque a povoação tinha um bastante jeitoso.



Laura Gusmão era o vértice dessa forma geométrica metafórica. Recentemente chegada, juntamente com o marido Orlando, participantes num programa municipal de repovoamento do interior, vivia numa casa na Rua da Bica Seca a uns novecentos metros - por caminho sinuoso descendo até à estrada principal - da gasolineira onde pedira para montar uma barraca dedicada à venda de queijos caseiros fabricados por ela e pelo marido. Este empreendimento dos lacticínios regionais punha o casal em concorrência directa com Quim “Lobo Mau” cujo estabelecimento ficava a uns meros quinhentos metros do posto de abastecimento. A alcunha do taberneiro, que para além dos comes e bebes aproveitava a mercearia para vender bugigangas, roupas e mais que se lembrasse, não advinha, como seria de esperar, do seu mau génio mas sim da colecção de centenas de figurinhas de barro pintadas, representando ovelhas e carneiros de todos os tamanhos, expostos num móvel de madeira com quase dois metros de altura.

Uma animosidade natural cresceu entre Orlando Gusmão e Joaquim “Lobo Mau” que, curiosamente, não se estendia até Laura. A jovem esposa de Orlando possuía uma personalidade que se alimentava de atenção masculina e, infelizmente, havia pouco disso em Borrasca. Pouco tempo passou até se tornar hábito verem Laura a fechar a sua barraquinha para ir passar as tardes no café do Joaquim.
- Ele conta-me histórias ma-ra-vi-lho-sas - entoava ela, em tom de cançoneta para Rolando, o seu amigo do posto de gasolina. - E é tudo perfeitamente inocente. Mas o Orlando não compreende.
Numa tarde de inverno, quando o gotejar de tráfego cessou quase por completo, ventos fortes anunciados pela Protecção Civil (Alerta Amarelo) varreram a quietude bucólica de Borrasca. Uma hora mais tarde, estando já a tempestade amainada, uma carrinha “pão de forma”, levando uma família de turistas holandeses em busca de um WC aberto, cortou da estrada principal em direcção à aldeia. Subindo o caminho, na beira da estradeca, encontraram o corpo de Laura Gusmão. Chamados ao local, a GNR encontrou um velho poste de demarcação de terreno arrancado do solo. A ponta ensanguentada parecia corresponder à ferida aberta na nuca de Laura. Luís Estrada, inspector estagiário da PJ, examinou a ferida e as pequenas manchas perfeitamente circulares de sangue pingadas na terra batida da valeta.

- Parece que o poste se soltou com o vento e lhe deu uma traulitada na cabeça. Acho que não vamos ser aqui precisos.

- Talvez, - respondeu o inspector Gregório Policarpo, meio agastado por estar temporariamente emparelhado a um maçarico. - Mas antes de escrevermos no relatório que isto foi um acidente vamos dar uma vista de olhos às redondezas.

No topo da lista de afazeres estava falar com Orlando Gusmão. O marido de Laura parecia devastado.

- A Laura e eu tínhamos os nossos problemas, mas andávamos a tentar ultrapassar tudo. Prometeu-me que não visitava mais a loja do Joaquim. Hoje de manhã era só bom ambiente durante o pequeno-almoço. Depois desceu a pé até à bomba de gasolina para abrir a barraca. Garantiu-me que não ia ficar até tarde, que não devia haver grande trânsito por causa do alerta. Devia estar a subir para casa quando foi apanhada pela tempestade. 

Quim “Lobo Mau” parecia igualmente triste. O choque causado pela notícia atirou o solteirão de meia-idade para um inesperado estado de honestidade.

- Ela ia deixá-lo, - disse aos dois agentes. - Hoje. A minha irmã comprou-me esta porcaria desta loja. Podem confirmar com ela. A Laura ia fechar mais cedo para vir ter comigo; pegávamos no carro sem dizer “água vai” a ninguém.

- Quem acha disto tudo? - perguntou Luís ao parceiro enquanto desciam a rua. - A vítima estava a ir para casa ou para o snack-bar do Sr. Joaquim?

- É difícil ter a certeza, - admitiu Policarpo. - O caminho onde encontraram o corpo dá acesso a ambos os sítios. Por outro lado, com vento forte a bombar é provável que ela fosse procurar abrigo o mais rapidamente possível e o café fica mais perto. Vamos ver o que diz o dono do posto de abastecimento.

Rolando Norte mostrou-se também completamente destroçado com os acontecimentos, fazendo disparar os alarmes da suspeição na cabeça dos dois polícias.

- Ela era uma mulher fantástica. Tão cheia de vida. Não me disse nada sobre para onde ia. O negócio estava mais que morto e o vento começava a soprar forte. Não a devia ter deixado ir sozinha. É tudo culpa minha.

- E agora? - o estagiário coçava a cabeça enquanto Policarpo procurava as chaves do carro no casaco, todo encolhido do frio crepuscular. - Damos isto como acidente ou homicídio?

- Há, neste caso, uma pista muito relevante, - atirou o inspector destrancando finalmente o veículo. - E diz-nos que isto é um homicídio.

- Como…

- E também nos diz quem é o criminoso.

- Quem matou Laura Gusmão?

- De que pista relevante estava o inspector a falar?

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #2 - Soluções

Baleia Caçada em Terra

- Quem é que os inspectores consideram o seu principal suspeito?
Diogo Lobo-Antunes

- Quais os fundamentos dessa suspeita?
O uso de uma arma de tão difícil manuseio sugere que o crime foi preparado apressadamente essa mesma noite. O local do crime e o facto de alguém ter remexido nos arquivos do clube sugere que o crime está ligado a assuntos do Yacht Club, reduzindo assim a lista de suspeitos para todos aqueles que participaram na reunião e também a sobrinha dos Baleia.

O criminoso sabia disparar a pistola, por isso deve estar ligado por laços de sangue ou afinidade à família Baleia. Assim a lista de suspeitos, novamente reduzida, passa a conter Celso Baleia e o casal Lobo-Antunes. Floriana Lobo-Antunes, que trabalhou até tarde num restaurante aberto ao público, tem um álibi facilmente verificável. Tanto Celso Baleia como Diogo Lobo-Antunes, ambos de baixa estatura, teriam a necessidade de utilizar um escalão improvisado - a cadeira em frente à lareira - para chegarem à arma do crime. No entanto a grave artrite nos joelhos de Celso impedi-lo-iam de andar a trepar mobiliário. Portanto, o suspeito principal é Diogo Lobo-Antunes.

Os inspectores acabaram por descobrir que Roberto Baleia suspeitava que o irmão andasse a desviar dinheiro dos fundos da associação e pediu discretamente a Lobo-Antunes, antes da reunião, para se encontrarem novamente no clube após todos os membros terem partido. Quando regressaram e reentraram no edifício (com ajuda da chave na posse de Roberto), começaram a vistoriar os registos financeiros arquivados na secretaria. As suspeitas contra Celso eram fundadas, mas o irmão desconhecia que Lobo-Antunes estava de conluio com o tesoureiro.

Apercebendo-se que o escrutínio dos arquivos revelaria a sua cumplicidade, Diogo saiu da secretaria desculpando-se com uma súbita vontade de visitar o WC, trepou a cadeira retirando a pistola da parede, chamou por Roberto para que ele saísse do escritório e, valendo-se da fraca mobilidade da vítima, trespassou-o com o arpão. O facto de estar a alguns metros de distância evitou que a sua roupa ficasse manchada com sangue - o que teria acontecido com métodos de homicídio mais confrontacionais.

O advogado limpou a arma, arrumou os ficheiros apressadamente e regressou a casa um pouco antes da esposa.

terça-feira, 29 de março de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #2

Baleia Caçada em Terra


Hmm… Sempre tive esta dúvida: as baleias caçam-se ou pescam-se?
Gregório Policarpo, Inspector da P.J. 


Jorge Neves abanou ligeiramente a cabeça em discreto sinal de espanto. Mesmo após tantos anos como inspector da Polícia Judiciária nunca se havia deparado com qualquer homicídio perpetrado com um arpão. Até agora.


O corpo de Roberto Baleia, vice presidente do Azores Yacht Club de Aveiro, espetado à parede do Salão Nobre do clube como se de um insecto numa tábua de cortiça se tratasse, não era uma visão agradável.

Neves e as outras pessoas, reunidas à volta de uma mesa dessa mesma sala, estavam visivelmente mais à vontade agora que a medicina legal removera o cadáver. O seu parceiro, o Inspector Gregório Policarpo, recusara sentar-se e deambulava com ar taciturno pela divisão, meio atento à conversa.

- O falecido Sr. Baleia foi então encontrado às seis e meia da manhã pelo contínuo e pelo cozinheiro, que aqui chegaram juntos - recapitulou Jorge. - Ligaram-lhe logo a si, Sr. Hélder, que de seguida ligou para o 112 e para os restantes membros da direcção.

- Um resumo correctíssimo, senhor Inspector - disse, nervosamente, Eduardo Hélder, o presidente do clube. - Só de pensar que tínhamos todos estado com ele ontem numa reunião de direcção nesta mesma mesa… Até tenho calafrios.

- E a que horas foi essa reunião? - perguntou Policarpo aproximando-se.

- Bem, eu dei início à sessão às sete e meia e encerrámos duas horas mais tarde. Para além de mim estavam presentes o Roberto, claro, o seu irmão Celso que é o nosso tesoureiro; a dona Dália Marcondes, nossa secretária; o Diogo Lobo-Antunes, nosso conselheiro legal; e ali a Doralice Canedo, nossa vogal.

- Quem foi o último a sair? - Neves garatujava uns apontamentos rápidos no seu bloco.

- Saímos todos mais ou menos juntos - respondeu Doralice Canedo. - Eu e o Eduardo ajudámos o Sr. Roberto e o Sr. Celso a entrarem nos respectivos carros. Ambos sofrem de artrite ao nível dos joelhos e precisam sempre de ajuda a subir e a descer escadas e a entrar e sair dos carros.

- Que idade tinha o seu irmão, Sr. Baleia?

- O Roberto tinha setenta e dois anos - esclareceu Celso Baleia, um homem baixo, queimado do sol e com uma voz trémula. - Eu sou três anos mais novo.

- Foi directo para casa?

- Sim. E antes que pergunte, vivo sozinho. Apesar da idade cá vou andando o melhor que posso. Ao menos ninguém me atrapalha a vida.

- E o Sr. Hélder? Directo a casa? E o Sr. Lobo-Antunes? Dona Marcondes? Menina Canedo? - Todos responderam o mesmo: finda a reunião foram directos para as respectivas casas de onde não voltaram a sair. Floriana Lobo-Antunes, uma trintona alta, ergueu cuidadosamente a mão.

- Eu não estive na reunião, Inspector. Sou chefe de mesa no Cesto da Gávea, um restaurante aqui perto. Estive a trabalhar até às dez e meia e cheguei a casa por volta das onze. O Diogo já lá estava.

- A senhora é a esposa do Sr. Lobo-Antunes, não é? - perguntou Policarpo.

- Correcto. Mas também sou sobrinha dos meus tios Roberto e Celso, por isso é que tive de vir cá falar com os senhores. Não foi, querido? - disse ela, virando-se para o marido.

- Pelo menos assim o quiseste, meu amor - atirou, amuado, o diminuto advogado.

Neves levantou os olhos para o companheiro que observava a pistola de arpões. Esta tinha sido novamente montada sobre a lareira de pedra para que os investigadores tivessem uma ideia mais precisa do local antes do crime. Não foram encontradas impressões digitais na arma.

- É um objecto fora do normal - pensou alto, mais para o amigo que para os restantes, - não chega a meio metro de comprido.

- É um verdadeiro tesouro de família! - declarou Celso Baleia. - A pistola foi inventada pelo Capitão João Baleia do baleeiro Sant’Ana. Só ele a conseguia disparar. Foi emprestada aqui ao clube há já muitos anos, completa com um arpão sem corda.

- Não pensaram nos riscos de terem aqui uma arma real? - Policarpo dirigia-se ao Sr. Hélder.

- A pistola só pode ser disparada depois da activação de alguns interruptores que estão no topo - respondeu o presidente atabalhoadamente. - A sequência correcta é um segredo da família Baleia, passado de geração em geração. Achei que isso servia como segurança.

Celso Baleia aquiesceu tristemente.

- Estou a ver - Policarpo coçou o queixo pensativamente. - Quem gere o dia-a-dia do clube, Sr. Hélder?

- Eu. Mais uma das minhas funções como presidente.

- O edifício estava trancado quando o cozinheiro e o contínuo chegaram esta manhã. Quem tem chaves para estas portas?

- Para além de mim, só o contínuo, os irmãos Baleia e a Dália. Normalmente o contínuo é sempre o primeiro a chegar.

Jorge levantou-se emprestando as suas notas a Gregório. Reviram silenciosamente os factos constatados. O médico-legal deu como estimativa da hora do óbito as dez e um quarto. A cadeira situada mesmo em frente à lareira tinha uma pequena marca de lama seca no assento. A vítima tinha sido morta perto da porta que dava acesso à secretaria do clube, onde uma gaveta de arquivo estava aberta deixando entrever alguns ficheiros financeiros mal arrumados.

Os “Pê Jotas” sorriram um para o outro. Neves falou abruptamente para os presentes.

- Muito obrigado a todos. Podem ir. Depois entraremos em contacto convosco. Principalmente - sussurrou ao amigo - com o principal suspeito.

- Quem é que os inspectores consideram o seu principal suspeito?

- Quais os fundamentos dessa suspeita?

sexta-feira, 25 de março de 2016

A Sebenta do Inspector Policarpo #1 - Soluções

O Telefone das Más Notícias

- Comparando os vários testemunhos, quem mentiu?
Eurico Venceslau

- O que levou os inspectores a deslindar o caso?
O testemunho de Eurico sobre o casaco de lã.
Se Eurico viu o seu atacante apenas pelas costas, conforme afirmou, teria sido impossível distinguir o casaco de lã de uma camisola normal. Eurico estava obviamente a mentir.

Depois de pressionado pela PJ Eurico confessou, admitindo que ele e Vladimiro haviam encenado todo o rapto como forma de extorquirem dinheiro ao pai, sempre relutante em separar-se mesmo de pequenas maquias.

Uma Dose de Dados #03

Rubrica de considerações e ponderações demasiado prolixas sobre RPGs de mesa A Minha Estante: Star Ace Já se depararam com a express...