segunda-feira, 2 de novembro de 2015

POR LINHAS TORTAS - Parte 02

POR LINHAS TORTAS

Um conto d’O Solucionador

Parte 02: Sínicos e Soviéticos

O brilho do sol reverberava dançante na superfície da lagoa varrida languidamente pelo vento. Sentado no cais tosco - a madeira, escurecida de humidade, equilibrada sobre finos postes rodeados de canas, fundeados no leito lodoso e seguros mais por fé colectiva que por engenho humano - demolhava os pés tentando entrever nas algas a silhueta de um qualquer lagostim. O pai chamou-o da margem, a uns quatro metros do lugar onde se encontrava, mas quando se virou para responder lá estava ele, alto, ombros largos, a pele morena ligeiramente encarquilhada pela maresia, o cabelo muito negro e espesso. Com a boca escancarada num trejeito por demais trocista, a podridão de alguns dentes à vista, pegou no filho pelos colarinhos e arremessou-o para a água.

- Nada, Cristóvão! - e ria, o seu gargalhar ecoando nos ouvidos submersos do miúdo como se o pai estivesse mesmo ali ao lado. Pânico, água gelada a entrar em borbotões pelo nariz e boca, cortando os pulmões. Criaturas de longos dedos gosmentos agarravam-lhe as pernas, os braços, lançavam-se já sobre o seu pescoço - quanto mais se debatia mais se enrolava nos argaços do lago. Abriu os olhos sob a superfície e bateu as pernas, dando impulso em direcção ao vulto que o observava, deformado pelas ondas. Emergiu, mas tudo era diferente. A água havia levado para longe a lagoa pejada de juncos e patos, o cais frágil onde atracavam pequenos barcos a remos, a margem onde passava a pacata estrada de aldeia piscatória. A forma do falecido pai, também lavada da sua vista, fora substituída pelo “advogado” que o esmurrara. Finalmente acordado, Cristóvão apercebeu-se que estava num diminuto quarto quadrado, as paredes de cimento despidas traziam-lhe à ideia uma cave pouco usada. Pousando o balde, que havia servido para o arrancar ao pesadelo, o homem apontou-lhe a pêra e fez uma só pergunta. Cristóvão, atado a uma cadeira aparafusada ao chão, atentou nas proeminentes orelhas do raptor, na testa alteada por impiedosas incursões de alopecia, nariz adunco quase bissectando o lábio superior. Um indivíduo com uma fisionomia tão característica só podia planear matá-lo assim que obtivesse a informação que queria. Não lhe daria a satisfação de tornar a tarefa fácil. Talvez a polícia o conseguisse encontrar antes da situação se tornar mais crítica. O orelhudo repetiu a pergunta enquanto despia o casaco. Trocaram um longo momento de silêncio. O sequestrador virou costas e arregaçou as mangas da camisa. Pegou num pequeno estojo rectangular com fecho-éclair e desapareceu nas costas da cadeira. Cristóvão ouviu-o a abrir o fecho, espalhando objectos que, pelo som, aparentavam ter pequenas dimensões. Não sabia se o homem fazia os preparativos para o que se seguiria longe da vista como uma pequena mercê ou para aliar suspense ao terror.

De pé, olhando para os instrumentos organizados em cima do tampo da pequena mesa, o homem seleccionou duas hastes metálicas finas e inflexíveis com pegas de cortiça. Trilhando uma pega entre os lábios, tendo o cuidado de não trincar e estragar a corcha, acocorou-se ao lado de Cristóvão massajando-lhe o braço esquerdo perto do cotovelo. O prisioneiro tremeu, ele imobilizou-lhe o braço com um aperto forte da mão.

Anos antes, um velho fisiatra, emigrante de leste que afirmava ter integrado as fileiras do KGB na antiga URSS, tinha-o ajudado a recuperar de uma grave lesão adveniente de uma queda de dez andares. Durante as longas horas de terapia importunava-o com historiúnculas do passado inglório no Comité de Segurança, salpicando as narrativas com nomes sobejamente conhecidos para lhes emprestar uma certa cor realista. Se tivesse sorte, os episódios inanes davam lugar a descrições minuciosas do que o geronte chamava izkustvoto na ubezhdavaneto, a “arte da persuasão”. Nunca interrogou o terapeuta sobre o facto de utilizar expressões em búlgaro e não russo. Certo dia em que as dores dos exercícios de reabilitação eram insuportáveis, o idoso Ília retirou um estojo de acupunctura do armário branco que ficava por cima do lavatório e lançou-se num monólogo intermitente, pausando, de quando em vez, para procurar os vocábulos que se escapuliam da conversa, enquanto lhe enfiava as agulhas na pele.

- Sabes - tratava todos por tu, não conhecendo outro pronome - uns dizem que a acupunctura vem da Índia parte de uma série de práticas medicinais muito usadas lá. A maioria, no entanto, diz que vem da China, nascida há milhares de anos das experiências de um curandeiro que gostava de espetar flechas em soldados feridos. Li muito sobre ela nos diálogos do Imperador Amarelo. Para quê? No Comité estávamos sempre à procura de novas formas de extracção de informação e o próprio Yuri Andropov teve a ideia, depois de ter sido tratado por um acupunctor, de inverter o conceito: se esta arte podia ser usada para reduzir sofrimento, não seria possível usá-la para o infligir?
Não fazia ideia se Ília estaria a mentir ou a dizer a verdade, as hipóteses do líder do KGB alguma vez ter sido tratado por um chinês eram remotas e a tortura com agulhas era certamente tão antiga como a cura não sendo necessário um russo do século XX vir atirar palpites para o ar, mas a história despertou-lhe o interesse. Assim, ignorando os modelos anatómicos atravessados por meridianos de energia vital, o saber pseudocientífico e filosófico da anciã tradição, muniu-se de um conjunto de agulhas e de um conhecimento perfunctório das ramificações nervosas do corpo humano adoptando uma forma de persuasão rápida, simples, limpa e eficiente baseada na ideia original. Descobriu, por exemplo, que a “dor de cotovelo” estava directamente relacionada com o nervo ulnar, o maior nervo desprotegido do ser humano. 

Apalpou o cotovelo de Cristóvão. Encontrou o local. Enterrou a agulha até à pega.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

POR LINHAS TORTAS - Parte 01

POR LINHAS TORTAS

Um conto d’O Solucionador

Parte 01: Justiça Roubada

Passou o polegar e indicador pela gola do casaco e ajeitou-a alisando o tecido. Examinou-se durante alguns segundos nas portas de vidro, verificando se o resto do fato estava apresentável e, acima de tudo, respeitável. Concluída a análise, pegou na pasta executiva de couro negro que mantinha segura entre os joelhos e empurrou a porta que dava acesso ao edifício. Varreu o olhar pela larga recepção, cheia de luz que entrava pelas paredes de vidro, e rodou sobre os calcanhares para o lado direito dirigindo-se a um balcão cinzento metalizado atrás do qual dois seguranças fardados, e com um crachá ao pescoço, debitavam informações a quem as solicitava. Após breve troca de palavras, subiu o lanço de escadas que se erguia nas traseiras da recepção até ao primeiro andar e seguiu para uma porta de madeira envernizada com uma viseira vertical em vidro e rede de arame que ostentava uma placa dizendo “Secretaria 1”.

Encostado ao outro lado de um fino balcão, elevado a uma altura ligeiramente acima da cintura de um indivíduo de estatura média, que servia meramente de separador entre atendedor e atendidos, estava um homem de cabelo escuro e corredio de oleosidade.

- Posso ajudá-lo? - perguntou o administrativo com uma voz nasalada e arrastada de enfado.

Retirou um papel da sua mala e entregou-a num gesto fluido e confiante. O burocrata correu os olhos pela folha e toda a sua postura se alterou para uma de bajulação infrene.

- Peço desculpa “sotôr”! Não costuma andar por estes lados, pois não “sotôr”? O réu está à sua espera. Entra nesta porta aqui em frente, vira à sua direita e é a segunda porta. Prazer em conhecê-lo, “sotôr”! Se precisar de mais alguma coisa é só dizer, “sotôr”!

Empurrou a porta de dobradiças duplas com o cotovelo e percorreu o caminho indicado, os sapatos de sola de borracha silenciosos sobre o pavimento flutuante, estacando momentaneamente, como que à escuta, antes de abrir a nova porta num repente, fechando-a suavemente atrás de si. Cristóvão, farto de estar sozinho no interior da sala ergueu-se do seu assento olhando expectante o recém-chegado.

- Onde está o doutor Falcão? - Cristóvão referia-se, com certeza, a Falco Falcão, advogado de nome improvável que tratava de o defender. Infelizmente o conhecido causídico, exímio navegador do dédalo jurídico, malabarista dos bizantinos procedimentos judiciais, perito em proteger os seus clientes sob um manancial de papelórios legais tão compacto que vastas vezes pura e simplesmente desapareciam do sistema, encontrava-se recolhido em casa subitamente acometido de uma estranha variação do ritmo circadiano, talvez causada por uma injecção inesperada de fundos na sua conta bancária e uma SMS não identificada dizendo apenas: “Amanhã atrase-se 1H30”, que o fizeram ignorar o alarme matinal.

O cadastrado, alegado perpetrador de um novo crime, embasbacava-se, confuso e suspeitoso da troca de advogados que lhe era apresentada como inevitável - coitado do Falcão, doente da noite para o dia e sem prognóstico de breves melhoras - por um desconhecido que nem queria olhar para ele, fixando o infinito para lá da única janela da divisão, absorto em pensamentos que pareciam manifestar-se numa contagem silenciosa. Os lábios mudos marcavam três minutos. O ruído de engrenagens hidráulicas a funcionar romperam pensamentos que tentavam fazer sentido de toda a situação, o advogado substituto puxou de uma foto que deixou cair na mesa à vista do marginal. Era ela.

- Quem raio é…! - Cristóvão não terminou, derribado e atirado para a inconsciência por dois socos certeiros.

O tempo era escasso. Nas traseiras do edifício do Tribunal encontrava-se um automóvel com elevador cuja plataforma descendente estava quase a passar por aquela sala. O funcionário da vidreira havia terminado de substituir uma janela, situada dois andares acima, partida na noite anterior. Vendo já o fundo do elevador a espreitar pelo caixilho colocou uma máscara de protecção sobre as vias respiratórias e ocultou-se, preparando uma lata de aerossol descaracterizada. Atacou assim que a plataforma anivelou com a divisão em que se encontrava - a mão esquerda disparou agarrando o surpreso operário pela nuca e borrifou-lhe a cara com o atomizador seguro na esquerda. Carregou no botão vermelho do comando enquanto o trabalhador inanimado escorregava, lentamente, sentando-se encostado ao corrimão protector. Atirou Cristóvão para o ascensor, um gemido abafado escapando do peso morto, e seguiu-o premindo o botão verde que recomeçava a descida. A oscilação, lenta mas segura, da maquinaria tornou-se sacudida ameaçando parar ou, pior ainda, lançar-se em queda livre. Seria muito comprometedor ser apanhado ali, um vidreiro roncante de um lado e um criminoso em julgamento, adormecido à força de punhos, do outro. Parou a plataforma e leu a matrícula do veículo no reflexo de um carro metalizado à sua frente. Que azar. A chamada para um serviço urgente no Tribunal havia feito a empresa utilizar o carro mais próximo: o que se tinha deslocado à cidade para uma tão merecida manutenção. Observou as mangueiras e localizou a fuga perto da base do braço elevatório. Sempre atento a movimentos nas casas circundantes abriu a mala e espalhou algum equipamento avulso pelo chão metálico. Arrumou um rolo de fita isoladora no bolso do casaco, prendeu uma resistente corda de escalada ao mainel que rodeava o elevador montando, com ajuda de mais corda e um mosquetão para o freio, um crude e extremamente perigoso sistema de rappel. Apesar da perícia com que deu os nós, inveja de muitos montanhistas, hesitou antes de se largar naquele vazio de poucos metros mas não menos letal por isso. Deixou-se cair.

A reparação improvisada durou alguns segundos terminando no completo sucesso da viagem vertical. Ninguém parecia ter ainda dado o alerta, as vivendas adjacentes à estrada tão quedas quanto antes, mas nunca fiando em aparências rapidamente abandonou o trabalhador ao seu merecido sono reparador carregando Cristóvão até uma Vanette parada ali perto. Deitou-o num grosso tapete de trapos estendido na traseira da carrinha e tolheu-lhe os movimentos com atilhos plásticos invioláveis para o caso de retomar os sentidos enquanto conduzia. Fechou a porta traseira. Abriu a porta do condutor, sentou-se, fechou-a. Ligou o motor. Partiu.

Uma hora e quinze minutos antes de Falco Falcão pôr um pé dentro do Tribunal, Cristóvão Zarco havia desaparecido.

segunda-feira, 9 de março de 2015

O Retrato de Manoel de Oliveira (Segredo da sua longevidade)

Teoria: Manoel de Oliveira atingiu a idade que todos sabemos porque é na realidade cronófago - uma criatura que absorve o tempo dos outros. Sempre que algum de nós se senta para visualizar qualquer película do mestre cineasta somos roubados desse exacto período que é acrescentado, por artes possivelmente sobrenaturais, à sua linha da vida. Daí a sensação de perda de tempo que alguns experienciam após verem um filme dele.

A única maneira de destruir tal criatura é encontrar as bobines originais dos seus filmes e queimá-las ritualisticamente numa fogueira de S. João enquanto cantamos a lengalenga do Aniki Bóbó.

Ou não.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Rapsódia de Gaita-de-Foles

Parte 1 - Explicação em Dó Menor

"Não compreendo nada disto!" - queixou-se Felipe ao Doutor Trusga. A verdade é que o raio do rapaz era de uma compreensão lenta que até assustava! Já não conseguia ouvir as lamúrias, cuspidas em zurrar asinino, do aluno que lhe tinha solicitado ajuda extracurricular. Era já a quarta sessão e nada!

Valha-me São Sinfrónio, será possível que exista alguém assim tão estupido?, pensou Fernando Trusga, professor do ensino secundário e filósofo do queijo nas horas vagas.

Subitamente foram os dois atropelados por um bando de tocadores de gaita-de-foles.

 Parte 2 - Semi-saga de um Martelo Pneumático para Instrumentos de Sopro

TAT-TAT-TAT-TAT, fez o martelo pneumático a perfurar o solo com imparável força, guiado pela mão relutante de um trabalhador estóico. Pedro era o nome desse trabalhador e ganhava muito pouco.

Subitamente foi atropelado por um bando de tocadores de gaita-de-foles.

Parte 3 - Montanha para Gaita e Estrondo

Esta narrativa segue de perto a fantástica estória de Fi-póim-tim-póim, monge budista de um qualquer templo longínquo que ninguém sabe exactamente onde se encontra. Observemos atentamente enquanto o "olho" narrativo sobrevoa as montanhas tibetanas e mata dezenas de pássaros que tiveram a infelicidade de se atravessarem no seu caminho.

Subitamente uma gaita-de-foles gigante arrasa o templo.

Parte 4 - Horror e uma Gaita

Não pretendo assustar os meus potenciais leitores com o seguinte conto, mas gostaria de vos alertar para o perigo que correm permanecendo no Jardim. Certamente que pensarão que estou a gozar, ou que esta narração pertence ao mundo das percepções dementes de um cérebro doente, pois deixem-me dizer que tudo o que escrevo nestas páginas é a mais pura verdade por mais estranho que vos pareça. Não deixem que o facto de eu estar internado numa instituição psiquiátrica vos detenha de lerem atentamente estes grafismos... O quê? Não!! Por favor tem piedade! NÃAAAAO!!! Gurk... *FUENNN* (onomatopeia representativa do som de uma gaita-de-foles)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pascoalidade Nacional

- No dia em que é conhecido o relatório do estudo encomendado pelo PSD no que concerne os índices de natalidade em Portugal, cabe-nos a nós relembrar a tantas vezes olvidada questão da pascoalidade nacional. É francamente alarmante que tão poucas pessoas ressuscitem em solo português não é assim Dr. Eleutério Rodovalho?

- É isso mesmo... Antes de mais deixe-me só desejar-lhe uma boa noite e um bem-haja por me ajudar a dar voz a esta situação de queda a pique dos números de ressuscitados no nosso belo país à beira-mar plantado...

- Mas diga-me uma coisa, qual é efectivamente, no presente, o número médio diário de ressuscitações entre os defuntos lusitanos?

- Ora bem... vou só consultar aqui os meus canhenhos... exacto, como eu temia é zero.

- Zero.

- Correcto, nota-se que presta atenção.

- Então e em termos gerais ou históricos, quantas pessoas voltaram à vida depois de, digamos, baterem a caçoleta?

- Em registo, e friso bem isto, EM REGISTO apenas uma pessoa em toda a história de Portugal ressuscitou e é uma vergonha que estejamos tão abaixo da média europeia em matéria de re...

- Dr. Eleutério desculpe interrompê-lo... Uma pessoa? Quem?

- Ora, eu pois está claro!

- O senhor.

- Sim, sim. Mas atenção que já o fiz várias vezes durante os séculos. Enfim, vou tentando fazer a minha parte para colmatar as lacunas que o governo permite ficarem mais vincadas de ano para ano.

- O Dr. Eleutério está a gozar connosco?

- Eu percebo que é bastante constrangedor ter a verdadeira noção da escassez destes números, mas temos que ultrapassar o choque e tentar perceber os porquês. No meu relatório faço menção à falta de condições que temos neste campo, condições que seriam essenciais para não afastarem os jovens defuntos deste tão importante passo na vida de cada um.

- Mas qual falta de condições?

- Também usava esse tom céptico quando comecei a pesquisa para este meu trabalho mas basta olhar para os outros exemplos que temos e rapidamente vemos que algo não está bem. Jesus, um alfacinha de gema decidiu ressuscitar no estrangeiro - no Médio Oriente veja bem!

- Então mas espere aí, Jesus não nasceu em Lisboa, nasceu em Belém.

- Ó amigo, francamente! Que não saiba nada de ressuscitações ainda é como o outro e para isso é que aqui estou. Agora, não me peça para lhe ensinar geografia local! Onde é que fica Belém, santinho?

- Estou em crer que Belém onde nasceu Jesus e Belém freguesia de Lisboa são dois sítios diferentes...

- Sim, e querem lá ver que os dinossáurios também habitaram a terra há milhões de anos atrás?

- Erm... há fortes indícios a apontar para isso.

- Olhe pois a mim não me enfia esse barrete porque eu estava lá! Na altura em que dizem que havia lagartos gigantes a galgar o planeta estava eu a tentar ressuscitar a primeira vez. E lá consegui depois de algumas falsas partidas.

- Peço desculpa Dr. Eleutério, notícia de última hora: a Terra vai explodir dentro de dez minutos. Depois do intervalo continuaremos a emissão do núcleo interno terrestre, composto por ferro e níquel, de onde acompanharemos a hecatombe até ao seu último segundo. Até já.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Bom dia Dona Pêga. O seu esposo como vai?

Empurrada pelo medo do que acabara de acontecer à sua frente, Clara tombou no vazio do penhasco que se abria nas suas costas. Abraçada pela noite, desapareceu no anonimato do nevoeiro compacto amontoado no fundo da ravina, cotão meteorológico aglutinado por uma vassoura gigante.

Sigesmundo havia de se recordar muitos anos deste episódio. De sentir o guincho estridente dela como um gume gelado que lhe dançava pela espinha - para cima, para baixo - por breves mas perenes segundos. Da pancada seca de aflição que o atordoou, raiando da base da nuca para todas as extremidades, enquanto Clara soçobrava, languinhenta, naquelas nuvens baixas...

À Procura das Japoneiras

Controlar a respiração era mais complicado do que se recordava.

A falta de exercício tinha-lhe deixado o corpo perro, os músculos e tendões carcomidos pela ferrugem da inércia, mas agora não havia volta a dar: tinha-se comprometido consigo próprio e não ia falhar. Fazia uma cruz no calendário em cada dia que planeava fazer jogging, para bem da sua saúde física e mental.

Enquanto ponderava estas questões, absorto, passaram por si vários postes e sinaléticas verticais que gritaram, em conjunto com os edíficios do quarteirão, a crescente infamiliaridade dos locais por onde se embrenhava.

Dobrou uma curva que enveredava por uma viela acima da qual emergiu apenas o passeio...

Uma Dose de Dados #03

Rubrica de considerações e ponderações demasiado prolixas sobre RPGs de mesa A Minha Estante: Star Ace Já se depararam com a express...