Empurrada pelo medo do que acabara de acontecer à sua frente, Clara tombou no vazio do penhasco que se abria nas suas costas. Abraçada pela noite, desapareceu no anonimato do nevoeiro compacto amontoado no fundo da ravina, cotão meteorológico aglutinado por uma vassoura gigante.
Sigesmundo havia de se recordar muitos anos deste episódio. De sentir o guincho estridente dela como um gume gelado que lhe dançava pela espinha - para cima, para baixo - por breves mas perenes segundos. Da pancada seca de aflição que o atordoou, raiando da base da nuca para todas as extremidades, enquanto Clara soçobrava, languinhenta, naquelas nuvens baixas...
quinta-feira, 26 de junho de 2014
À Procura das Japoneiras
Controlar a respiração era mais complicado do que se recordava.
A falta de exercício tinha-lhe deixado o corpo perro, os músculos e tendões carcomidos pela ferrugem da inércia, mas agora não havia volta a dar: tinha-se comprometido consigo próprio e não ia falhar. Fazia uma cruz no calendário em cada dia que planeava fazer jogging, para bem da sua saúde física e mental.
Enquanto ponderava estas questões, absorto, passaram por si vários postes e sinaléticas verticais que gritaram, em conjunto com os edíficios do quarteirão, a crescente infamiliaridade dos locais por onde se embrenhava.
Dobrou uma curva que enveredava por uma viela acima da qual emergiu apenas o passeio...
A falta de exercício tinha-lhe deixado o corpo perro, os músculos e tendões carcomidos pela ferrugem da inércia, mas agora não havia volta a dar: tinha-se comprometido consigo próprio e não ia falhar. Fazia uma cruz no calendário em cada dia que planeava fazer jogging, para bem da sua saúde física e mental.
Enquanto ponderava estas questões, absorto, passaram por si vários postes e sinaléticas verticais que gritaram, em conjunto com os edíficios do quarteirão, a crescente infamiliaridade dos locais por onde se embrenhava.
Dobrou uma curva que enveredava por uma viela acima da qual emergiu apenas o passeio...
domingo, 29 de julho de 2012
Invenções de Somenos Relevo que Deixaram o Mundo Mergulhado na mais Profunda Indiferença mas Ainda Assim se Armam em Importantes
OS GRAMPOS
E outras coisas de agarrar à parede
Foi em 1897 que Óscar “Camarão” Grampo revolucionou a indústria dos museus ao colocar na parede as peças que, até aí, haviam atrapalhado os patronos que visitavam os atulhados espaços culturais. O caminho até à epifania grampesca foi um longo e tortuoso fim-de-semana que praticamente exterminou a então prática corrente de colocar tudo em cavaletes.Reza a lenda que numa bela manhã de domingo a família Grampo[1] estava de visita ao Museu de Belas Artes do Pissarral visionando com óbvio gáudio a exposição de cenas piscatórias do famoso, mas misterioso, pintor português O Artista Antigamente Conhecido como 1 Atum Mas Que Preferia Ser Chamado 2 Sardinhas dispostas com primor sobre cavaletes de fabrico artesanal. Seguiu-se um lamentável desaire quando Óscar, distraído pela acirrante conversa com Chiquinho Pai desencadeou, com um simples encosto, o desastroso efeito dominó numa versão cavalete. É de notar que a tela originalmente derrubada foi o singular “Sapateiro Abalroado por Rodovalhos” assinado já com o epíteto do período expressionista do artista Vá lá, Chamem-me 2 Sardinhas.
Estavam portanto lançadas as sementes da necessidade sobre o campo fértil de ideias que era o intelecto de Óscar Grampo sempre temperado, como ele nunca escondeu, com a compostagem de óptima qualidade (daquela que cheira mesmo a caquinha de vaca) que eram os conselhos de Xiquinho Filho – também ele grande vulto do engenho nacional, sendo até creditado com a invenção do osso de choco artificial para periquitos – em suma, as condições ideais para a germinação de um grande invento.
Partindo de uma tentativa de readaptar as ferramentas que já existiam para o propósito que pretendia, usou pregos para fixar alguns quadros na parede da Casa-Museu Porque É Que Ninguém Me Chama 2 Sardinhas, em Trezói, originando algum atrito com Alexandre Carcanhol, curador do espólio em repouso nessa instituição, na polémica que a imprensa da época apelidou d’A Crise do Estuque e que durou, na boa, uns vinte minutos. Trinta no máximo. Destas suas experiências surgiram: fixadores de cabos, pitões, camarões (uma homenagem à alcunha do seu criador) e, claro, os almejados grampos, jóias da coroa deste tesouro da bricolage. Infelizmente, quando alcançou a solução pretendida havia mutilado inúmeras peças de arte de forma incomportável sendo obrigado a ceder a patente dos seus frutos geniais como forma de pagar as devidas indemnizações.
Óscar Grampo, degustador de camarão e cerveja, apreciador das belas artes, filósofo, teólogo, astrónomo, apicultor e produtor de queijo ímpar, faleceu na penúria abandonado por todos os seus amigos e familiares. Esperamos ter feito alguma justiça ao relembrar que na cabeça deste homem, para além da caspa, assentavam os louros da invenção do indispensável grampo.
Terminamos este texto, em jeito de homenagem, com um excerto de Sa main dans ma derrière, autobiografia de Xiquinho Filho que nos revela os pormenores da sua intimidade com o grande inventor, confirmando os rumores de uma relação amorosa entre ambos. O autor tem então o seguinte a dizer sobre Óscar: “Meu Deus, exclamou a princesa, que bom.”
[1] Dados encontrados em 1998 por historiadores nos cadernos de censo do INTED (Instituto de Números Total e Extremamente Desinteressantes), antecessora do INE, mostram que o agregado da família Grampo na primavera de 1897 era constituída pelo “Excelso Senhor Óscar Grampo, um títere registado sob o nome Chiquinho Pai e o bonifrate seu companheiro, Xiquinho Filho.”
terça-feira, 10 de maio de 2011
A mente é uma fábrica de vinhetas para os Malucos do Riso
Um HOMEM abre a porta de um restaurante e dirige-se ao EMPREGADO:
HOMEM - Já está.
EMPREGADO - Bom dia!... Já está o quê?
HOMEM - Bom dia. Já está.
EMPREGADO - ... Já... está?... Desculpe, vem para almoçar?
HOMEM - Não, não. É só para dizer que já está.
EMPREGADO - Mas já está o quê? O senhor está a gozar comigo?
HOMEM - Então os senhores não têm na porta um letreiro a dizer "Empurre SFF"? Só lhe vim dizer que já empurrei.
EMPREGADO olha com cara de parvo para a câmara enquanto se ouvem risos "enlatados".
HOMEM - Já está.
EMPREGADO - Bom dia!... Já está o quê?
HOMEM - Bom dia. Já está.
EMPREGADO - ... Já... está?... Desculpe, vem para almoçar?
HOMEM - Não, não. É só para dizer que já está.
EMPREGADO - Mas já está o quê? O senhor está a gozar comigo?
HOMEM - Então os senhores não têm na porta um letreiro a dizer "Empurre SFF"? Só lhe vim dizer que já empurrei.
EMPREGADO olha com cara de parvo para a câmara enquanto se ouvem risos "enlatados".
Um cemitério cheio de Ti
Sinto a tua falta. Desde que fizemos aquela estúpida promessa no dia do meu décimo quinto aniversário nunca te esqueci. Subo a rua, a gravilha esbranquiçada estala sob a sola de borracha das minhas sandálias, o couro castanho maculado pelo pó solto do caminho engaiola as meias que trago calçadas.
Dizias-me, quando as nossas modas mudavam para acomodar o clima mais quente do Verão, que era fatela – acho que era a palavra exacta que utilizavas – vestir meias e algum tipo de calçado aberto em público; recordo-me dos teus olhos verdes a rebolarem em sarcástica discordância com a minha justificada aversão a fungos e outras maleitas das extremidades corporais inferiores. Rir-te-ias de mim ao saberes que continuo a temer, irracionalmente, a gangrenação do meu pé esquerdo?
O município, há muito, decepou as árvores que enfeitavam os passeios de pedra branca em frente a tua casa – as mesmas que por esta altura inundavam a estrada com o cheiro, a cor e o ruído da estação – alegando serem um embaraço à deslocação dos transeuntes.
[...]
Dizias-me, quando as nossas modas mudavam para acomodar o clima mais quente do Verão, que era fatela – acho que era a palavra exacta que utilizavas – vestir meias e algum tipo de calçado aberto em público; recordo-me dos teus olhos verdes a rebolarem em sarcástica discordância com a minha justificada aversão a fungos e outras maleitas das extremidades corporais inferiores. Rir-te-ias de mim ao saberes que continuo a temer, irracionalmente, a gangrenação do meu pé esquerdo?
O município, há muito, decepou as árvores que enfeitavam os passeios de pedra branca em frente a tua casa – as mesmas que por esta altura inundavam a estrada com o cheiro, a cor e o ruído da estação – alegando serem um embaraço à deslocação dos transeuntes.
[...]
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Frase Perdida
No vazio do seu pensar, o vaga-lume de uma lembrança acendeu-se timidamente recordando-o do velho Rodovalho...
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A Queda de Roma - Crónicas de um Jet7 Rasca
Miguel Fidavilho Bordalosa descansava num quarto especial da sua clínica privada, recuperando de ferimentos causados pela explosão de um dos implantes mamários da sua acompanhante na última Cocktail-Party que honrou com a sua presença. A pobre coitada, apesar dos avisos e do sinal de altamente inflamável e explosivo colocados nas suturas, chegou-se demasiado perto de um candelabro com acabamentos em filigrana, o que resultou na lamentável tragédia.
Raios partam os implantes baratos.
Até ao fim dos seus dias ir-se-á sempre recordar da visão dantesca de Marieta "TaTa" Serveira de Vasconcelos a descrever um interessante movimento de pêndulo com as pernas após ter voado 10 metros na vertical e ter, num improvável efeito de ventosa, ficado agarrada ao vidro da clarabóia pelos seus lábios colagenados.
O tratamento estava a ser complicado. Levar com detritos de derivados de borracha na cara não era pêra doce. Apesar da sua aparência externa ter sido recuperada em 93%, as suas narinas permaneciam irresolutamente vulcanizadas e tudo lhe cheirava a fábricas de recauchutagem.
Raios partam os implantes baratos.
Até ao fim dos seus dias ir-se-á sempre recordar da visão dantesca de Marieta "TaTa" Serveira de Vasconcelos a descrever um interessante movimento de pêndulo com as pernas após ter voado 10 metros na vertical e ter, num improvável efeito de ventosa, ficado agarrada ao vidro da clarabóia pelos seus lábios colagenados.
O tratamento estava a ser complicado. Levar com detritos de derivados de borracha na cara não era pêra doce. Apesar da sua aparência externa ter sido recuperada em 93%, as suas narinas permaneciam irresolutamente vulcanizadas e tudo lhe cheirava a fábricas de recauchutagem.
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